Segunda-feira, 31 de Outubro de 2016
WEBANGELHO SEGUNDO FREI BENTO DOMINGUES

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A Igreja e a Política: que Igreja e que política? (2)

Depois de, na Europa, se terem mandado as religiões para a sacristia, para não perturbar a política e a política não perturbar as religiões, estas apresentam-se inopinadamente na praça pública em trajes e armas pouco convencionais.

1. Continuando, como prometemos, na temática do Domingo passado, lembro o que escreveu José M. Mardones[1]: depois das revoluções norte-americana e francesa, do século XVIII, marcos da modernidade, a religião abandonou o campo da política. Tinha deixado de ser necessária para legitimar o que podia ser perfeitamente legitimado pela razão humana. Ergueu-se, então, um muro entre Igreja e Estado, muito fino na América e uma separação abrupta e violenta na Europa. A partir daí, os crentes sentiram muitas vezes a tentação, não de trabalhar no âmbito da política, mas de politizar a religião e de religiosizar a política.

Emilio Garcia Estébanez estudou, de forma crítica, o percurso ocidental, desde Platão até aos nossos dias - passando por Aristóteles, os Estoicos, Sto. Agostinho, S. Tomás e Maquiavel, etc. - das relações entre ética e política[2]. Procurou esclarecer a ambiguidade da noção de bem-comum, muito celebrada na Igreja Católica.

Para este filósofo e teólogo, o pensamento ético-político dos estoicos constituiu um dos mais completos da antiguidade, ainda que o seu forte tenha sido a ética. A respeito desta, do ponto de vista histórico, pode-se dizer que eles alcançaram o mais alto nível prático e teórico a que chegou a filosofia moral pagã. Isto pode afirmar-se não apenas em termos relativos, mas também em termos absolutos: a escola estoica, real e objectivamente, construiu um sistema quase perfeito de moral natural, quanto aos seus elementos essenciais.

Em política, a sua concepção sobre a igualdade de todos os seres humanos e o seu universalismo social constituiu, unida às elaborações do mesmo género dos seus antecessores, um corpo completo de doutrinarismo político. Os elementos da doutrina política de Platão e de Aristóteles, enquadrados pela doutrina estoica, teriam criado o panorama político ideal, pouco menos que perfeito. Parece, a esse autor, que o conjunto que poderia ser formado por aqueles sistemas, devidamente articulados, ainda não foi superado por nenhum outro sistema. Além disso, os Estoicos puseram como fundamento de todo o seu filosofar um princípio realmente exacto e frutífero: viver em sintonia com a natureza. Num mundo sem revelação sobrenatural como garantia, o caminho para chegar à verdade consiste em interrogar, com honestidade e sem preconceitos, a natureza.

2. Sto. Agostinho negou que os pagãos pudessem ser virtuosos. Se fosse possível, sem a fé, alcançar a justiça, Cristo teria morrido em vão. Não agiam pelo verdadeiro fim, isto é, para agradar a Deus, pois o único Deus é o dos cristãos. Não basta actuar com energia, constância, afrontando com valentia penas e perigos. É preciso fazer tudo isso pelo Deus verdadeiro. Acusaram Sto Agostinho de dizer que as virtudes dos pagãos eram, apenas, esplêndidos vícios. Nunca o disse expressamente, mas, segundo Estébanez, quem tirou essa conclusão estava na linha das suas invectivas contra os pagãos. Sto Agostinho recusou a existência de uma ética natural.

A doutrina política deste grande génio era uma consequência lógica das suas concepções morais. A finalidade do Estado consiste em promover, sobretudo, o culto divino, cuidar dos bons costumes e práticas dos seus membros, de modo que em nenhum momento se ofenda o Deus verdadeiro. Juntamente com esta, enumera outras finalidades, tais como, manter a paz interior e exterior, promulgar leis que tenham em conta uma justa partilhar dos direitos e deveres, velar pela guarda das leis mediante a aplicação de castigos.

A ideia agostiniana do Estado estava marcada pela convicção de que este deve ser antes de tudo cristão, nos seus membros, na sua actividade e nos seus interesses. Sem esta orientação, degenera num bando de ladrões. A ideia de que o Estado deve, inclusive, aplicar os seus meios específicos, a força, para promover o bem espiritual está a um passo. Sto Agostinho deu esse passo.

Acerca da doutrina política desse grande Doutor da Igreja, S. Tomás de Aquino teve a habilidade de o interpretar num sentido diametralmente inverso. Adopta, sem mais explicações, a definição que Cícero deu do Estado e que Agostinho tinha rejeitado categoricamente.

3. Desde a antiguidade pagã, desde o regime de cristandade, desde as revoluções da Modernidade muita coisa mudou. A melhor de todas foi a Declaração dos Direitos e Deveres Humanos. A globalização, ao não ser a mundialização da solidariedade, nem sempre os respeita e promove. Em 2014 os refugiados já eram 19,5 milhões e 38,2 milhões de deslocados.

A guerra fria regressou mesmo no combate ao DAESH. O panorama político tanto nos EUA como na Rússia, a situação anémica da UE e as ambições da China levantam a pergunta: estaremos a construir um mundo onde haja lugar para todos, em diálogo e cooperação?

Depois de, na Europa, se terem mandado as religiões para a sacristia, para não perturbar a política e a política não perturbar as religiões, estas apresentam-se inopinadamente na praça pública em trajes e armas pouco convencionais.

É preciso repensar tudo, de fio a pavio, e ensaiar outros caminhos. Será isso que pretendem os Bispos franceses? Veremos.

 

[1] Fe y Política, Sal Terrae, 1993, Bilbao

[2] El bien común y la moral política, Herder, Barcelona, 1970



publicado por animo às 16:33
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Domingo, 30 de Outubro de 2016
WEBANGELHO SEGUNDO ANSELMO BORGES

HOJE, SÓ DÁ O PRIVILÉGIO DA AMIZADE DE UM DOS MAIORES WEBANGELISTAS DO NOSSO TEMPO:
PADRE ANSELMO BORGES.
Hoje,estava mesmo a precisar do seu WEBANGELHO.
Porque sim.
Leiam, se quiserem e puderem!
Obrigado, querido Padre, meu Irmão.
(Foto.Pedro da Silva.Pe Anselmo Borges na apresentação da minha Exposição "Abril, Ânimos Mil",Galeria da Associação 25 de Abril, 16 Abril, 2009).

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AS ÚLTIMAS PALAVRAS DE GENTE ILUSTRE

Pe Anselmo Borges
In DN

Tenho muitas vezes um sonho: que a todos, antes do instante supremo da morte, fosse dada a possibilidade de responderem a estas perguntas ou parecidas: "O que é que eu vi da vida? Que digo sobre o mistério de ser, de existir?" Isto resultaria na grande biblioteca da humanidade.

Philippe Nassif publicou Ultimes, resultado da sua investigação sobre as últimas palavras de gente ilustre, antes de morrer, que fez acompanhar de um comentário. O que aí fica, em vésperas do Dia dos Defuntos, é uma selecção.

1. Anton Tchékhov. "Há muito que não bebia champanhe." Médico e escritor russo, comprometido com o alívio do sofrimento e o amor do próximo. Tuberculoso, manda chamar um médico e pede-lhe... champanhe. "Ich sterbe" (estou a morrer). Vira-se para a mulher, pronuncia as suas últimas palavras e esvazia tranquilamente a taça.

2. Luís XIV. "Porque é que chorais? Pensáveis que eu era imortal?" Impressiona que, já no fim, o Rei Sol lembre a sua condição mortal.

3. Johann Sebastian Bach. "Vou finalmente ouvir a verdadeira música." A sua música não fora afinal senão aproximações das harmonias divinas. "O paraíso é música."

4. Marcel Proust. "Agora posso morrer." Reencontrou o Tempo. "Não o dos relógios, mas o tempo verdadeiro, no qual passado, presente, futuro fazem um só e assim nos libertam."

5. Sarah Bernhardt. "Ama." Talvez a maior actriz do seu tempo, antes de entrar em coma, coloca docemente a mão na cabeça de um jovem comediante, a quem deixa a suprema recomendação: "A vida não vale a pena ser vivida a não ser que se saiba desposar, amorosamente, tudo o que acontece."

6. François Rabelais. "Vou à procura do grande talvez." São comoventes e já modernas estas últimas palavras. O para lá da morte "é um ponto de interrogação, uma preocupação, uma abertura que, plantada no coração da existência, liberta uma infinidade de possíveis, de "talvez"".

7. Sócrates. "Críton, devemos um galo a Asclépio, não deixes de liquidar esta dívida." O galo, cujo canto anuncia a aurora, simbolizava para os gregos a salvação da alma. Com esta oferta ao deus da medicina, Sócrates agradecia a cura da libertação em relação ao corpo. Para ele, a filosofia também é terapêutica, um treino de morrer e estar morto para o mundo dos sentidos.

8. Jesus Cristo. "Meu Deus, meu Deus, porque é que me abandonaste?" Um Deus submetido à morte mais miserável e humilhante! Segundo o autor, estas palavras impuseram-se como "das mais decisivas da história da humanidade", constituindo "uma ruptura irremediável no inconsciente psicopolítico do Ocidente". Hegel teorizou sobre a Sexta-Feira Santa especulativa e Nietzsche proclamou a morte de Deus, "uma constatação vertiginosa". Desde então, "a maior parte dos ocidentais vivem com esta questão cravada no mais íntimo; experienciam, e é inédito, uma existência privada de fundamento, garantia, apoio último." "Livre, abandonado", resumirá Beckett.

9. Madame Roland. "Liberdade, quantos crimes se cometem em teu nome!" A caminho do cadafalso, é ao passar junto à Estátua da Liberdade que lança esta apóstrofe célebre a propósito dos "empreendimentos perversos que ameaçam sempre a ideia de liberdade".

10. Johann Wolfgang von Goethe. "Mais luz!" "O real e o ideal", a luz terrestre e a luz do espírito, juntas na mesma palavra.

11. Olympe de Gouges. "Fatal desejo de Fama, porque é que quis ser alguma coisa?" Replicou à misoginia da Assembleia Nacional com um feminismo pioneiro: "A mulher tem o direito de subir ao cadafalso; deve ter igualmente o de subir à Tribuna." O Terror ser-lhe-á fatal e, já no cadafalso, "deixa escapar uma diatribe contra a sua funesta aspiração à celebridade - e confessa-se, também aí, com avanço sobre o seu tempo".

12. Ludwig Wittgenstein. "Digam--lhes que tive uma vida maravilhosa." Um dos maiores filósofos do século XX viveu atravessado pela alegria do questionamento, da descoberta. "A algumas horas da morte, entrega a fórmula sóbria da grande ética."

13. Rainer Maria Rilke. "Quero morrer a minha morte, não a dos médicos." A sua obra foi uma meditação sobre a morte. Acolhê-la é avançar no "Aberto". Recusou, pois, o apoio do médico, que o privaria de uma relação directa com "a mais decisiva das experiências".

14. Leão Tolstoi. "A verdade... amo muito... a todos..." A expressão de um cristianismo sem dogmas, reduzido à única lei de Cristo: o amor.

15. Francisco de Assis. "Bem-vinda, minha irmã morte."

16. Clara de Assis. "Bendito sejas, Senhor, por me teres criado."

17. Fernando Pessoa. "Não sei o que o amanhã trará." Na véspera da morte, deu entrada no Hospital de São Luís dos Franceses, atingido por uma cirrose. Escreveu em inglês: "I know not what tomorrow will bring." Sim, ninguém sabe, até ao dia em que já não haverá amanhã neste mundo. Mas "A morte é a curva da estrada./ Morrer é só não ser visto./ Nunca ninguém se perdeu./ Tudo é verdade e caminho."

Caminho, digo eu, para a plenitude da vida em Deus.

Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico



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Quarta-feira, 26 de Outubro de 2016
ALMADA 2017 . TUDO OU NADA

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ALMADA 2017 . TUDO OU NADA

Decorreu com êxito a primeira sessão de trabalho com vista à exposição de obras do autor numa grande superfície comercial de Almada.
O início de 2017 está, como diz o meu querido amigo Pe Anselmo Borges, DESAFIANTE.
Vamos dar-lhe "ALMA", caríssimo Zé Falcão, Jose Tavares!!!!

Mais notícias sobre o como e quando do lugar, em breve.
Obrigado.

FOTO. Paulo Spranger/GLOBAL IMAGENS



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Sábado, 22 de Outubro de 2016
WEBANGELHO SEGUNDO ANSELMO BORGES

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Utopias, distopias, retrotopia
Pe Anselmo Borges, in DN

Coube-me a honra de um convite para participar no magno evento cultural Folio, na bela Óbidos, com uma fala sobre utopias e distopias, a que acrescentei retrotopia, pelas razões que direi.

 

1. Foi Thomas More que cunhou o termo utopia, com a publicação, há 500 anos, de A Utopia, cujo título em latim é mais longo: De Optimo Reipublicae Statu Deque Nova Insula Utopia (sobre o melhor estado de uma República e sobre a nova ilha da Utopia). Ele sabia do que falava, concretamente do poder, pois foi chanceler. A Igreja canonizou-o em 1935. A Utopia é uma ilha imaginada lá longe no oceano (utopia tem o seu étimo no grego: ou, que se lê u, que significa não) e tópos, com o significado de lugar. Portanto, Utopia é um não lugar; de qualquer forma, um ideal que indica o caminho.

A utopia supõe a distopia (também do grego: dys, que significa mau, duro: portanto, um mau lugar, o oposto a utopia). Assim, na primeira parte, More critica os males que atravessavam a sociedade inglesa, do despotismo e venalidade dos cargos públicos à sede de luxo por parte dos privilegiados e à injustiça e opressão que provocam. Na segunda parte, descreve uma sociedade ideal, que imaginariamente já se encontra realizada na ilha da Utopia. Neste sentido, embora haja vários tipos de utopias, a utopia nasce como eutopia (mais uma vez, do grego: eu - bom, feliz, e tópos, um lugar bom e felicitante, como na palavra Evangelho: eu+angelion, notícia boa, feliz, felicitante).

 

2. Com Thomas More encontramo-nos no Renascimento e na dinâmica do Humanismo. A sua Utopia deriva também, de algum modo, da secularização do messianismo, do Reino de Deus e sobretudo da escatologia. Se, na perspectiva cristã, o Reino de Deus será consumado na meta-história, agora, com as utopias, pretende-se realizá-lo já neste mundo, na nossa história, na imanência terrena. Por outro lado, se, em certos casos, eventualmente, a ideia utópica nasceu do sonho de levar adiante o que aconteceria se não tivesse havido pecado original - neste quadro o Reino de Deus já estava no princípio e não no fim -, o que é facto é que as utopias começaram por ser espaciais (A Utopia de More é uma ilha), mas, sobretudo por causa dos desenvolvimentos da técnica e da nova consciência histórica, passaram a ter uma dinâmica mais temporal: a utopia não está ainda imaginariamente realizada num lugar, mas tem o seu tópos no "ainda não" do futuro.

As utopias têm duas funções fundamentais : por um lado, são crítica da situação presente e, por outro, impulso para transformá-lo, olhando para um futuro outro, numa sociedade livre e justa, de bem-estar para todos. Parte-se do princípio de que o ser humano é constitutivamente utópico, porque é um ser desejante e esperante, que aspira à felicidade. Por outro lado, se a utopia não há-de cair no mero escapismo, na ilusão ou no wishful thinking, é necessário estudar as possibilidades de transformação da realidade. A utopia é constituinte do ser humano, porque ele deseja mais e melhor, a perfeição, e, por outro, há condições objectivas na realidade para a concretização do desejo. É toda a dinâmica entre "o que é" de facto e o que "pode e deve ser".

Há perigos reais nas utopias. Eles têm que ver concretamente com a "geometrização" da sociedade utópica, de tal modo que se cai na distopia da ditadura, esquecendo o indivíduo e a pessoa. Quando, por exemplo, o socialismo de utópico passou a científico e se implantou como "socialismo real" foi a tragédia que se sabe. Agora, está aí a utopia, a caminho de realizar-se, do transhumanismo e mesmo do pós-humanismo, na busca de uma nova espécie e da imortalidade, a partir do cruzamento das NBIC (nanotecnologias, biotecnologias, informática, inteligência artificial, ciências cognitivas). Projecto grandioso, mas é necessário ter consciência dos perigos e intervir política e eticamente. Que queremos verdadeiramente?

 

3. Significativamente, se esta utopia sobretudo técnica, que inclui a Uberlândia, goza de fascínio, no nível social e político reina mais o pessimismo e, assim, o sociólogo famoso Zygmunt Bauman perguntou recentemente ao jornalista da Der Spiegel (3-9-2016): "Já ouviu falar do conceito de retrotopia?" "Será o título do meu próximo livro." Hoje, é "a desilusão" face ao futuro: "Vivemos catástrofe após catástrofe: terrorismo, crise financeira, estagnação da economia, desemprego, precariedade..., desconfiança, cada um é para o outro um potencial opositor e concorrente", os perigos são omnipresentes. "Por isso, voltamo-nos para o passado e, no entanto, movemo-nos de modo cego para diante." "É notável que precisamente o Papa Francisco clame expressamente por uma cultura do diálogo. Só ela nos possibilitará perceber e respeitar o outro como parceiro legítimo."

 

4. Também participou no Folio Salman Rushdie, com quem dialoguei da primeira vez que veio a Portugal, em 2006, sobre "O Deus do Mediterrâneo". Ele veio relembrar como as religiões institucionais podem ser e são tantas vezes distópicas. Como eu o compreendo! Mas estou convicto de que Deus não desaparecerá da vida da humanidade. Ele continuará presente, em primeiro lugar, na pergunta por Ele. Porque o ser humano é constitutivamente utópico e esperante. E só Deus pode preencher e dar Sentido último, por graça, ao seu desejo e esperança infinitos.

Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

 

 

 

 

 



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Terça-feira, 18 de Outubro de 2016
WEBANGELHO SEGUNDO ANSELMO BORGES

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O VINHO NA BÍBLIA
Pe.Anselmo Borges
in DN 15 Out

Em tempo de vindimas e vinho novo, fica aí uma alusão ao vinho na Bíblia.

1. O vinho é tão importante, com funções tão significativas no convívio social e na vida toda, que os antigos até pensavam que ele era uma criação dos deuses. Dioniso - Baco para os romanos - era o deus do vinho, que ensinou aos homens a arte do cultivo da videira e da preparação do vinho. Ele é de tal modo exaltante que, na leitura dos clássicos, da grande literatura, como belos poemas, grandes tragédias, romances geniais, dizemos que ficamos "inebriados". Diante do esplendor da beleza - o maior exemplo, para mim, é sempre a música, a grande música -, há quem exclame: "Uma bebedeira de beleza!" Num dos mais extraordinários diálogos filosóficos de sempre sobre o amor - o Banquete (Simpósio), de Platão -, lá está o vinho. Na Bíblia, as referências ao vinho são muitas. Tanto no Antigo como no Novo Testamento.

2. No Antigo Testamento, encontramos, logo no primeiro livro, o Génesis, dois textos. O primeiro, com Noé cultivando uma vinha, "a mais preciosa e nobre de todas as plantas da Bíblia" (Ariel Álvarez). Noé adormeceu com uma bebedeira e o filho Cam entrou na sua tenda e viu a sua nudez e foi amaldiçoado. E há outro pai, Lot, que as filhas embebedaram para poderem ter relações com ele e descendência. (Note-se que se trata tão-só de narrações com finalidade política: diminuir os cananeus, os moabitas, os amonitas, com os quais Israel tinha relações tensas. Para rebaixá-los, estas narrativas põem estes povos a descender de relações incestuosas, e não se esqueça que o incesto é, para a Bíblia, um dos pecados mais aberrantes.)

Veja-se este texto de exaltação do vinho, no livro de Ben Sira: "O vinho é como a vida para os homens, se o beberes moderadamente. Que vida é a do homem a quem falta o vinho? Ele foi criado para alegria dos homens [aqui, digo eu: e das mulheres]. Alegria do coração e júbilo da alma é o vinho, bebido a seu tempo e moderadamente."

3. O vinho está bem presente no Novo Testamento. Assim, na Primeira Carta a Timóteo, é recomendado ao discípulo de São Paulo que beba vinho: "Doravante não bebas só água, mas toma um pouco de vinho."

No Evangelho, acusam Jesus de "comilão e beberrão". Escandalizavam-se, mas Jesus não exclui ninguém, o Reino de Deus e a sua alegria são também para os pecadores. Essa foi a sua mensagem por palavras e obras. Participou em banquetes com publicanos e outros, que eram ricos, mas não levavam uma vida justa. Alguns seguiram-no, como Mateus, e Zaqueu converteu-se, deixando de explorar o povo.

Lê-se no Evangelho segundo São João, que logo no início da sua vida pública Jesus transformou a água em vinho. Ele encontrava-se com os discípulos numas bodas de casamento, em Caná da Galileia. Faltando o vinho, Maria, sua mãe, deu-lhe a triste notícia. E o que é facto é que o vinho apareceu. E em abundância: 600 litros. E vinho esplêndido, a ponto de o chefe de mesa chamar o noivo para lhe dizer: "Toda a gente serve primeiro o vinho bom e, quando tiverem bebido bem, serve então o inferior. Tu, porém, guardaste o vinho bom até agora!" Assim, diz o evangelista, inaugurou Jesus os seus sinais. Que sinais? É isso: o Reino de Deus é para todos e é o Reino da humanidade boa, justa e feliz. Como podia faltar a alegria do vinho numa festa de casamento, símbolo do encontro de Deus com a humanidade? É o vinho novo e, por isso, diz Jesus: "Ninguém deita vinho novo em odres velhos; se o fizer, o vinho romperá os odres e perde-se o vinho e os odres. Deita-se vinho novo em odres novos."

Outro passo, inesquecível, é o da Última Ceia. Sim, o Reino de Deus é para todos, mas nem todos estão interessados em que seja para todos. Por isso, Jesus pôs o dedo na ferida, escalpelizou a indiferença e a opressão, nomeadamente por parte de quem explorava em nome da religião oficial, e, assim, foi condenado à morte pelos sacerdotes e mandado executar pelo representante do Império, Pôncio Pilatos. Nas vésperas da sua entrega, ofereceu uma ceia, a Última Ceia. Nela, tomou o pão: "Tomai e comei todos. Isto é a minha vida entregue por vós." Também o cálice com vinho: "Este é o sangue da Nova Aliança." "Fazei isto em memória de mim." Desde então, os discípulos, que acreditaram que Jesus está vivo em Deus, pois não morreu para o nada, mas para a plenitude da vida de Deus, que é Amor, reuniram-se em banquetes festivos e fraternos. E fizeram memória de Jesus. E o pão é o pão da vida, que dá força para os caminhos da existência com Deus e em solidariedade activa com a humanidade. E o vinho é o vinho da alegria partilhada com todos.

Jesus disse que não voltaria a beber do fruto da videira, "até àquele dia em que o hei-de beber de novo convosco no Reino de Meu Pai". E é esta esperança, a esperança do vinho novo na plenitude da festa e da alegria do Reino de Deus que, de uma maneira ou outra, anima a todos. Infelizmente, embora isso talvez fosse uma inevitabilidade, as Eucaristias de hoje estão muito longe, no modo como são celebradas, de ser antecipações vivas dessa alegria festiva na sua plenitude. No princípio, era diferente.



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WEBANGELHO SEGUNDO FREI BENTO DOMINGUES

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NÃO HAVERÁ SALVAÇÃO
Frei Bento Domingues
In Público 16 Out

1. Por causa do texto do passado domingo, recebi um telefonema longo, tentando mostrar-me que já não existem deuses, homens ou mulheres que nos possam salvar. O mundo está irremediavelmente perdido. Os cristãos são os mais culpados pela enganosa ideia de salvação. Depois da derrota de Jesus de Nazaré, inventaram a fé na impossível ressurreição. Não havendo remédio contra a morte, só ela nos pode livrar do mal de existir.

 Depois desta metafísica veio uma sumária lição sobre a responsabilidade europeia no actual desconcerto do mundo. No séc. XIX, a filha da civilização das Luzes cegou-se com o alargamento das suas zonas de dominação. Duas guerras mundiais, de horrorosos extermínios, tornaram a memória do século XX numa vergonha sem nome.

 

Das ruínas surgiu a ideia de construir uma Europa como nunca tinha existido. Num momento de lucidez, alguns dirigentes de partidos democratas-cristãos e sociais-democratas consentiram em criar as condições para a sua união. Não previram que os sucessores iriam desprezar as boas regras da cooperação e do funcionamento democrático das instituições. Com desníveis económicos tão acentuados e sem o desenvolvimento de uma cultura de diálogo intercultural — a partir da família, da escola e das relações de trabalho — os velhos demónios do nacionalismo populista voltaram a agitar-se.

 Os eurocépticos passaram a queixar-se do casamento e a calcular as vantagens e inconvenientes de um divórcio. O outro europeu está a tornar-se um adversário e os acossados pela guerra e pela fome que lhe batem à porta são seleccionados conforme o contributo que possam representar para os seus interesses e necessidades.

Uma Europa, esquecida da sua alma profunda, de mal com a economia, a política e as religiões, suicida-se julgando que está a salvar a sua pele. Recusa ver-se ao espelho, juntamente com os EUA, para não enfrentar as suas responsabilidades na desordem deste mundo. Caiu o Muro de Berlim, outros continuaram e novos se ergueram. As desigualdades sociais tornam retórica a Declaração dos Direitos Humanos. As Nações Unidas são um belo nome para a desunião global.

2. Com essa injecção de tópicos históricos pretendia o meu leitor curar a minha ingenuidade teológica. Agradeci, mas observei-lhe que existem muitos outros argumentos para reforçar o seu pessimismo. Se até um candidato à presidência da maior potência mundial, dispondo das universidades mais desejadas, consegue tantos apoios vociferando ordinarices, talvez possamos ver donde não vale a pena esperar a salvação. Existem outros caminhos.

Todos os dias me espanto com a inesgotável energia criadora, em actos, gestos e palavras, do papa Francisco. Alegra-me, sobretudo, a sua atitude permanente de acolher e suscitar a criatividade das outras pessoas, analfabetas ou intelectuais, sejam elas cristãs, agnósticas, ateias, de outras religiões ou sem religião. Incita a derrubar muros, a construir pontes, a escutar o outro com afecto. Gosta de mobilizar e casar a inteligência e as emoções para desenvolver um mundo de compaixão pelos caídos na valeta. Todos convocados, de geração em geração para cuidar, reparar e tornar bela a casa comum.

A tão falada reforma da Cúria e do Banco do Vaticano, os afrontamentos do mundo eclesiástico desde os bispos, padres e seminaristas, começando sempre pelos eminentíssimos cardeais, são apenas manifestações do acolhimento de Jesus Cristo em todas as dimensões da vida humana actual. Como acaba de escrever o filósofo francês Jean d’Ormesson: “Francisco reencontrou o espírito revolucionário do cristianismo. Foi o cristianismo, abrindo-se às mulheres, aos pobres, aos escravos que permitiu todas as grandes revoluções a partir das quais podemos pensar a sociedade na qual hoje vivemos. Só há uma revolução: o cristianismo.”[1]

3. Esta observação talvez não vá ao fundo da questão e não é apenas porque em nome do cristianismo e da sua pureza também foram praticados muitos crimes.

Jesus Cristo está testemunhado e configurado pelos textos do Novo Testamento, mas não está congelado há dois mil anos nessa escrita. Esses textos testemunham de Alguém que está vivo, hoje, nos acontecimentos e na vida das pessoas, acolhido ou rejeitado. A grande tentação religiosa consiste em pensar que o encontro com o Ressuscitado acontece apenas e sobretudo nas missas, nos sacrários e nas exposições do Santíssimo Sacramento. Esses exercícios espirituais valem e muito na medida em que nos lembrem que Jesus Cristo é o clandestino da semana, derrubando muros, separações, inimizades, entre pessoas e grupos. A devoção que retém as pessoas nas igrejas, nas sacristias, está a opor-se a um Jesus em viagem para as periferias sociais e culturais. Foi isto que o papa Francisco veio lembrar: só vale uma Igreja de saída!

O Papa não está a inventar nada. Lembrar apenas a pergunta de Deus: que fizeste do teu irmão? [2] O julgamento religioso de toda a história humana, religiosa ou profana, em todos os seus momentos, depende da resposta a essa pergunta[3].
Há salvação. Deus não gosta de fazer nada sozinho e o papa Francisco também não.
[1] Le Monde des Religions, n 79, p. 70
[2] Gn 4, 1-16
[3] Mt 25, 31-46



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Sexta-feira, 14 de Outubro de 2016
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DN "BATE"......A GERINGONÇA!

Ó pázinhas queridas Ritinha (Rita Tavares ) e Marcinha (Márcia Galvão ) foi só a brincar e foi tudo imaginação minha, tudo porque agora não está cá, noContinente/Forum Montijo um segurança armado aos músculos (socorre-me João Neves!) e que ontem me proibiu de ler......jornais porque era "uma coisa muito feia", logo hoje que eu lhe chapava aqui com o artista sem-abrigo das artes plásticas ao domicílio!



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quiosque

QUIOSQUE

DN "BATE"......A GERINGONÇA!

Ó pázinhas queridas Ritinha (Rita Tavares ) e Marcinha (Márcia Galvão ) foi só a brincar e foi tudo imaginação minha, tudo porque agora não está cá, noContinente/Forum Montijo um segurança armado aos músculos (socorre-me João Neves!) e que ontem me proibiu de ler......jornais porque era "uma coisa muito feia", logo hoje que eu lhe chapava aqui com o artista sem-abrigo das artes plásticas ao domicílio!



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MATINAS

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Ó balha-me Deus....zzzzz...zzzz!
Afinal a Garagem está no Diário de Notícias,inteirinha, com a minha Arte toda lá estacionadinha!
Mas...o que eu quero mesmo é sair da Garagem e circular com a minha Arte pelas ruas,avenidas e becos do quotidiano!!...
2
Agradeço as manifestações de carinho e apreço recebidas ao longo desta manhã!
Mas......quero chamadas telefónicas e mails a solicitar a minha presença!
Um Hotel e uma empresa abordaram-me, já, assim como quem quer experimentar o terreno!
Aos meus amigos, passem a palavra!
Ajudem-me nesta Arte de multiplicar a Arte!



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Ó BALHA-ME DEUS....ZZZZZ....ZZZZ....ZZZZZ

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Foto: Paulo Sprangler.Obrigado Paulo e Mariana.

UMA PEQUENA NOTA

Só uma pequena correcção: a revistinha ânimo NUNCA FOI EXTINTA!!!!Ela é ETERNA!!!Tomou foi outras formas, adaptou-se à evolução dos tempos! Foi moda com o pioneiro "offset" (o tio Pacheco Pereira tem lá guardadinhos os dez números então saídos, a partir de Abril de 1979!) mas esteve depois em tudo o que mexeu com centros culturais regionais, rádios livres, imprensa regional, mail, blogs, facebook....
2
Mais logo, uma leitura mais atenta.
Obrigado ao DN e....à minha amiga Fernanda Mendes que se antecipou!!!!!
Grazi tante!!!!
A notícia aqui no link:
http://www.dn.pt/artes/interior/o-artista-que-ja-foi-assessor-do-ps-e-frade-faz-arte-ao-domicilio-5440496.html

 



publicado por animo às 02:46
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Quinta-feira, 13 de Outubro de 2016
QUEM SE METE COMIGO LEVA COM.....MÚSICA

QUEM SE METE COMIGO LEVA ....MÚSICA!!!!

Quem se mete comigo, LEVA.....com esta Tocata Nº2 de 4' 59'' nos ouvidos!!!
PIM!!!!

...

Para o Senhor Curador Geral do Reino, que ontem me aconselhou a desistir de "começar uma carreira aos 64 anos no mundo da Arte, onde ninguém me conhece ( "mas eu até tenho simpatia por si", disse-me!!)" e também que não "perca tempo em ir bater a outras portas pois liberta o interlocutor x e y dessa maçada, ouça, os critérios da arte contemporânea são muito apertados!!!Não diga a ninguém que a sua Mota mete a Lata de Soap do Andy Warhol a um canto, por amor de Deus!!".

Como se eu estivesse interessado em "começar uma carreira"!!!!
Como se eu estivesse interessado em "esmolas da mesa da Arte Contemporânea"!!!!
Pim!!!!
Toma lá e não digas que vais daqui!!!!

 



publicado por animo às 13:55
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WEBANGELHO SEGUNDO FREI BENTO DOMINGUES

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As mulheres na Igreja

O espantoso é que Jesus não escolheu as mulheres para discípulas. Foram elas que o escolheram, seduzidas pelo que ele era, sem qualquer miragem de poder.

1. O ciclo de tertúlias, de Janeiro a Novembro de 2016, na Biblioteca de Belém, é inteiramente dedicado às mulheres. No passado dia 29, o tema era As mulheres na Igreja, desenvolvido pela filósofa Maria Luísa Ribeiro Ferreira e moderado por Maria João Sande Lemos. Como carta fora do baralho, pediram-me uma intervenção.

Lembrei-me, imediatamente, da antiga distribuição das pessoas no espaço da igreja da minha aldeia: os homens à frente, as mulheres e crianças atrás. O padre dizia a Missa, em latim, de costas para todos.

 

As mulheres limpavam a igreja, enfeitavam os altares e algumas ensinavam a “doutrina” às crianças. Dizem-me que, nas igrejas das cidades, as actividades e associações femininas eram mais abundantes e variadas.

A partir dos anos 30 do século passado, a Acção Católica teve um papel muito activo na renovação da vida da Igreja. Manteve, em todas as suas expressões, a separação entre masculina e feminina. O assistente era sempre um padre.

Nos anos 60, para os Cursos de Cristandade, a religião não era para mulheres. A versão feminina surgiu apenas para que elas pudessem entender o repentino fervor dos maridos cursilhistas.

Na mesma época, casos como o da Juventude de Cristo Rei – inteiramente misto e em perfeita autogestão democrática – eram raros.

Os chamados Institutos femininos de Vida Consagrada nunca precisaram de nenhuma ordem para se multiplicarem, mas também nunca eram dispensados da autorização masculina.

Compreendo que as novas gerações já não saibam o que isso quer dizer e as mais velhas não gostem de o lembrar. No entanto, o tema, As mulheres na Igreja, é recorrente, mas falar do papel dos homens na Igreja parece insólito. Porque será?

2. Para o teólogo jesuíta, J. Moingt, a propósito desta e de outras questões, é indispensável reencontrar o Evangelho. Só ele poderá salvar a Igreja [1]. É preciso, de facto, alterar os termos do debate. Segundo as quatro versões do Evangelho, Jesus nunca teve nenhum problema com as mulheres. As suas dificuldades foram sempre com os discípulos que Ele próprio escolheu. O Evangelho de S. Marcos sublinha, várias vezes, que os apóstolos não compreendiam nem as palavras e nem os actos de Jesus [2].

Vendo mais de perto os textos, a razão do desentendimento parece-me ser a seguinte: Jesus venceu as chamadas tentações messiânicas da dominação económica, política e religiosa; os discípulos deixaram tudo para o seguirem, mas com a ideia de que faziam um bom negócio. Jesus tomaria o poder e seriam eles a ocupar os postos ministeriais. A discussão, entre eles, era sempre a mesma: Quem seriam os primeiros? A determinada altura, os filhos de Zebedeu, Tiago e João, não aguentaram a espera e foram ter directamente com o mestre: Concede-nos que, na tua glória, nos sentemos um à tua direita e outro à tua esquerda. Jesus respondeu: Nem pensem! Mas há algo mais interessante ainda: Os outros dez, tendo ouvido isto, começaram a indignar-se contra Tiago e João. Jesus chamou-os e disse-lhes: Sabeis que aqueles que vemos governar as nações as dominam e os seus grandes as tiranizam. Não deve ser assim entre vós. Quem quiser ser grande entre vós, faça-se servo e quem quiser ser o primeiro entre vós, faça-se o servo de todos. Pois também o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por todos.

Segundo os Actos dos Apóstolos [3], mesmo depois da ressurreição, os discípulos não desarmaram: Senhor, é agora que haveis de restaurar a realeza em Israel? Jesus já não aguenta mais essa ambição teimosa de poder: só o Espírito Santo será capaz de os mudar!

O espantoso é que Jesus não escolheu as mulheres para discípulas. Foram elas que o escolheram, seduzidas pelo que ele era[4], sem qualquer miragem de poder. Pelo contrário, seguiram-no até à cruz e ao sepulcro, sem nunca lhe pedir nada em troca e prontas a financiar o seu projecto [5].

Destas discípulas, Jesus ressuscitado fez apóstolas do futuro do Evangelho no mundo. São elas as encarregadas de evangelizar os apóstolos, os discípulos: Eis que Jesus veio ao seu encontro e lhes disse: Alegrai-vos. Elas, aproximando-se, abraçaram-lhe os pés, prostrando-se diante dele. Então Jesus disse: Não temais! Ide anunciar a meus irmãos que se dirijam para a Galileia; lá me verão [6].

3. Quando se voltar a ter em conta a força desta cena ressuscitante, as discussões sobre os ministérios das mulheres na Igreja, impôr-se-á a pergunta: teremos autoridade para desordenar aquelas que Jesus ordenou? Elas não procuraram ministério nenhum. A vida delas foi de puro serviço do amor. Foi Jesus ressuscitado que, espontaneamente, as encarregou de evangelizar aqueles que, toda a vida, apenas procuravam o poder.

Se não quisermos continuar no ridículo, teremos de voltar a este tema.

 

[1] J. Moingt, L’Evangile sauvera l’Église, Paris, Salvator, 2013

[2] A Bíblia de Jerusalém acentua as seguintes passagens: Mc 4, 13; 6, 52; 7, 18; 8, 17-18.21.33; 9, 10. 32; 10, 35-45

[3] Act 1, 6-8

[4] Lc 7, 36-50; 8, 1-3

[5] Mt 28, 1-10

[6] Mt. 28, 9-10 e par.



publicado por animo às 13:17
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WEBANGELHO SEGUNDO ANSELMO BORGES

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Pe Anselmo Borges, In DN 8 Outubro
EXCEPCIONLISMO ISLÂMICO

1 Na religião, como tentei tornar claro no Sábado passado, o decisivo é a experiência religiosa, mística, do encontro pessoal com Deus, com todas as consequências de comprometimento com o amor ao próximo, também na política. Mas, num mundo pluralista, em ordem à convivência e à paz, há condições essenciais, nomeadamente o Estado aconfessional. De facto, sem a separação da religião e da política e sem um Estado laico, não se vê como é possível garantir a tolerância e a liberdade religiosa de todos. Evidentemente, a laicidade nada tem a ver com o laicismo pelo qual, desgraçadamente, muitos sectores, sobretudo da esquerda política e cultural, se batem.

2 Quando a laicidade não foi garantida, imensos atropelos foram cometidos no âmbito do mundo cristão, como mostrei no Sábado. De qualquer forma, o fundador, Jesus, tem aquelas palavras decisivas: "Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus". O cristianismo foi durante 250 anos uma religião pacífica e não pretendia conquistar o poder político. Aliás, seguindo o exemplo de Jesus que, chegado a Jerusalém, não exerceu violência, pelo contrário, mandou que Pedro metesse a espada na bainha, e foi crucificado.

3 Não tenho dúvidas: milhões e milhões de muçulmanos fizeram e fazem uma experiência religiosa autêntica com o Deus Clemente e Compassivo, como diz o Alcorão, e a maior parte são pessoas que querem a paz.

Mas, depois, como disse, há um problema essencial, que tem a ver com a religião enquanto instituição. Aí, é imprescindível uma leitura histórico-crítica dos textos sagrados, concretamente do Alcorão, que, como sabe qualquer investigador sério, sendo constituído por várias camadas históricas na sua redacção, não permite uma leitura literal. Por outro lado e repetindo, não há possibilidade de igualdade e liberdade religiosa, sem a laicidade, a separação da religião e da política.

Não se pode escamotear a história. Como escreveu Giulio Albanese, no livro O islão explicado a quem tem medo dos muçulmanos, "É claro que certo tipo de comunicação esquece que o islão, através das suas conquistas militares, foi inclusivamente mais colonialista do que o Ocidente. Embora historicamente o islão tenha conhecido etapas de maior tolerância do que a demonstrada pelas sociedades cristãs da altura (por exemplo, na época medieval), de facto na maior parte das sociedades islâmicas está vigente ainda a lei de apostasia pela qual um muçulmano que abandona o islão é susceptível de pena de morte. E é curioso que esta vexata quaestio, de capital importância para a liberdade de consciência e de expressão, nunca seja posta em discussão nos diferentes debates inter-religiosos e mediáticos nos círculos pan-árabes".

Ao contrário de Jesus, Maomé não foi só um profeta: foi ao mesmo tempo um Chefe de Estado e um guerreiro que combateu em muitas batalhas e derramou sangue. E só quem nunca leu o Alcorão de modo crítico é que pode dizer que o islão é só uma religião de paz.

Assim, como mostra o prestigiado académico Shadi Hamid, ele próprio muçulmano, num livro importante acabado de publicar, Islamic Exceptionalism, é fundamental perceber que, precisamente porque, historicamente, nasceu com um profeta, Maomé, a formar e a governar um Estado, o islão constitui de facto uma "excepção" na história das religiões: ele é diferente, por exemplo, do cristianismo no "modo como se relaciona com a política". É preciso reconhecer que centenas de milhões de muçulmanos à volta do mundo "querem que o islão desempenhe um papel importante na vida pública". Pode-se gostar ou não, mas, se realmente o islão vai desempenhar nas próximas décadas um papel central na política, também no Ocidente, "então o objectivo não deveria ser empurrá-lo para fora ou excluir as pessoas, mas encontrar maneiras de adaptá-lo num processo legal, pacífico e democrático". Tarefa urgente e ingente, sobretudo num Ocidente que não é só laico, mas laicista e, para lá de secularizado, secularista, materialista.

4 Com este pano de fundo e no contexto da morte por degola do Padre Jacques Hamel, que o Papa Francisco considera mártir e cujo processo de beatificação aceitou acelerar, Ross Douthat, escreveu recentemente no The New York Times sobre o futuro da religião na Europa: A Igreja em que cresceram tanto o Papa Francisco como o padre Hamel tem a perspectiva do Concílio Vaticano II e "supõe que a modernidade liberal representa uma mudança permanente, uma espécie de maturação na qual também a religião deve amadurecer. Mas a Igreja católica madura, pelo menos no Ocidente, é literalmente uma Igreja em agonia. Como fez notar o filósofo francês Pierre Manent, o cenário do assassinato de Hamel ilustra bem a condição da fé na Europa ocidental: "uma igreja quase vazia, dois fiéis, três freiras, um sacerdote ancião". É provável que o islão de muitos dos imigrantes seja a força religiosa mais poderosa na Europa na próxima geração, trazendo consigo um "excepcionalismo islâmico" (Shadi Hamid) que bem poderia não encaixar em nada no actual experimento laico e liberal".



publicado por animo às 13:08
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ESTÁ LINDA A GARAGEM DA ARTE

ESTÁ LINDA A GARAGEM
ONDE, AGORA, SERENA, ESTACIONA ARTE

E pronto, tudo está preparado para mais logo.
Adivinhem quem vem saber do que se passa?!

...

2
Estamos preparados para servir as primeiras pisas, perdão,os primeiros pedidos de ARTE AO DOMICÍLIO!
Você contacta-nos, a partir da sua casa, do sótão ou da cave da sua casa, da sua empresa, do seu armazém, de onde quer ver-se livre de..."tralha" e nós vamos lá ver o que se passa e o que é que depois de falarmos pode vir a passar-se.
O milagrre da ARTE que transforma "tralha", "lixo", em luxo artístico!!!

Pode contactar-nos aqui pelas mensagens do Facebook ou, se quiser, pelo mail:

animo.semper@gmail.com

Daqui a pouco vai ver que não estamos a brincar!!!!!

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publicado por animo às 01:29
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Quarta-feira, 12 de Outubro de 2016
DE QUANTOS NOMES SE FAZ UM NOME . OU AS VACAS SAGRADAS TREMEM

ÃNIMO.ARTE AO DOMICÌLIO

No Atelier da Garagem, já pode ouvir-se, a partir deste peciso momento, António Ferraz Meg's Projct, album "Enigmatic Encounters"!

Muitas novidades a acontecer porque foi recusado que outras novidades acontecessem!

Dá cá uma tusa!


Na Música como na Pintura, meu caro António, as vacas sagradas tremem por quem lhes ameaça a tranquila pastorícia.
Afinal de quantos "nomes" se FAZ UM NOME?!
Apetecia dizer-me que o meu grande objectivo é meter-me na cama com "alguém" do Moma, da FundaçãoEDP ou Gulbenkian...
Esperem para ver!
2
EXPOSIÇÂO DE ABRANTES prolongada até 2 de Dezembro!

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publicado por animo às 22:38
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