Segunda-feira, 23 de Novembro de 2009
WEBANGELHOS DE ANSELMO E BENTO DOMINGUES

Frei Bento Domingues

In Público, 22 Novemebro 2009

 

A CARTA DA COMPAIXÃO

No passado domingo, na mesquita junto à Praça de Espanha, por iniciativa, acção e amabilidade de Abdool Vakil, presidente da Comunidade Islâmica, foi possível reunir representantes de muitas religiões, ateus e agnósticos - não me recordo de participar, em Lisboa, numa assembleia tão diversificada - para reagir a um documento internacional chamado "Carta da Compaixão" (Charter for Compassion). Como em Portugal ainda é muito pouco conhecido, importa perceber como nasceu e o que pretende.

John E. Fetzer (1901-1991), pioneiro na construção de meios de comunicação, onde enriqueceu, fundou o Instituto Fetzer, com sede em Kalamazoo (Michigan), com a missão de "promover a consciência do poder do amor e do perdão na comunidade global emergente, baseado na convicção de que os esforços para abordar as questões importantes, no mundo, devem ir além das estratégias políticas, sociais e económicas, para atingir as raízes psicológicas e espirituais".

O Prémio TED (Tecnologia Entretenimento e Design) surge como um evento, sem fins lucrativos, dedicado às "ideias que vale a pena divulgar". Desde 2005, com o apoio do Instituto Fetzer, reúne, em conferência anual, os mais fascinantes pensadores e realizadores do mundo que são desafiados, durante quatro dias, a uma viagem pelo futuro. São atribuídos prémios a três pessoas excepcionais que, em 18 minutos, apresentem "um desejo para mudar o mundo".

Em 2008, a escritora inglesa, Karen Armstrong (1944 -) recebeu este prémio por ter lançado, com base na "regra de ouro", tanto na sua formulação positiva como negativa, central em todas as religiões - quase sempre apresentadas como focos de guerras -, o desejo e o projecto daquilo que veio a ser a Carta da Compaixão. A participação global - pessoas de todas as nações, origens e credos - no processo aberto da sua redacção era um ponto de partida e uma exigência essencial. E assim aconteceu. Com esse método, a Carta consegue transcender as diferenças religiosas, ideológicas e nacionais para se tornar num instrumento de mobilização global.

 

 

2.A "regra de ouro" que Karen Armstrong (na foto) descobriu, com espanto, no coração das diferentes tradições religiosas, éticas e espirituais - embora formulada com pequenas diferenças e explicitada de várias maneiras na sua intervenção - costuma exprimir-se de forma negativa: não faças aos outros o que não desejas que outros te façam e, de forma positiva, faz aos outros o que desejarias que os outros te fizessem (1).

É este princípio que serve de guia a toda a Carta da Compaixão. As palavras dependem muito do seu uso e a "compaixão" evoca, para algumas pessoas, aquilo que, precisamente, não querem dos outros, isto é, comiseração, pena, situação de coitadinhos ou coitadinhas. Não entrando pela via do sentimentalismo e sem recorrer às etimologias que tem nas diferentes línguas, a compaixão não é apenas a recusa da indiferença. Impele a trabalhar, sem descanso, para aliviar o sofrimento do próximo, a destronar o nosso eu do centro do mundo, para aí colocar os outros. Ensina-nos a reconhecer o carácter sagrado de cada ser humano e a tratar cada pessoa, sem excepção, com respeito, equidade e absoluta justiça.

A Carta convoca todos os homens e mulheres a recolocar a compaixão no centro da moral e das religiões, a retomar o antigo princípio de que são ilegítimas todas as interpretações das Escrituras que geram violência, ódio ou desprezo, a garantir aos jovens informações precisas e respeitosas acerca das outras tradições, religiões e culturas, a incentivar uma visão positiva acerca da diversidade cultural e religiosa, a cultivar uma inteligência compassiva perante o sofrimento de todos os seres humanos, mesmo dos considerados inimigos.

 

3.Esta Carta não pretende lançar uma nova organização. Já existem centenas, em todo o mundo, a trabalhar, incansavelmente, em nome da compaixão e do diálogo não só inter­confessional, mas envolvendo todas as pessoas de boa vontade. O seu objectivo é fazer ressaltar o esforço de todos esses grupos e movimentos para aumentar a visibilidade do seu trabalho e torná-los contagiantes. A Carta pretende mostrar, de forma activa, que a voz do negativismo e da violência, muitas vezes associada à religião e às religiões, é apenas de uma minoria e que a voz da compaixão é, pelo contrário, a voz da grande maioria.

Em Portugal, como em muitos outros espaços, apanhámos o comboio em andamento, sem participar na elaboração desse pequeno e precioso texto sobre uma nascente escondida na floresta das grandes religiões, das grandes elaborações morais, muitas vezes ocupadas e preocupadas com discussões sem fim acerca de construções doutrinais e esquecidas do coração da vida. Que fazer para lhe imprimir uma dinâmica que envolva pessoas, grupos, organizações e movimentos para colaborar em tudo o que os une, respeitando e reforçando as diferenças que exprimem uma abundância de vida e de vontade na transformação do mundo?

 

(1) Temas&Debates traduziu, desta escritora, desde 1998 até 2009: Uma História de Deus; Jerusalém: Uma Cidade, três Religiões; O Islamismo: História Breve; Buda; Grandes Tradições Religiosas. Na Ed. Teorema apareceu Uma Pequena História do Mito.

 

NR

Sublinhados nossos. ac

 

 

Pe Anselmo Borges

 

In Diário de Notícias

21 Novembro 2009

 

A SOBREVIVÊNCIA DA CIVILIZAÇÃO

 

Leszek Kolakowski morreu no dia 17 de Julho último, em Oxford. Era pouco conhecido entre nós, mas foi um filósofo ilustre. Nasceu em Radom (Polónia), em 1927. Partidário de um "marxismo humanista", foi expulso do Partido comunista e da cátedra universitária, por causa da oposição ao regime e luta pela liberdade. Deixou o país e leccionou em Universidades afamadas, como Oxford, Yale e Berkeley. "Correntes principais do marxismo" é uma obra fundamental para conhecer o marxismo, que considerou uma religião secular.

Pouco antes de morrer, o alemão DIE WELT entrevistou-o. Fica aí uma síntese da entrevista.

As profecias racionalistas sobre a religião mostraram-se falsas. "Não conto com a morte da religião nem de Deus. O país tecnologicamente mais desenvolvido do mundo, os Estados Unidos, não é de modo nenhum o mais secularizado. A secularização, longe de conduzir inexoravelmente à morte da religião, levou à busca de novas formas de vida religiosa. Nunca se chegou à vitória iminente do reino da razão. Nem só de razão vive o Homem."

Um admirável mundo novo, tecnologicamente avançado, no qual a Humanidade esquecesse "a sua herança religiosa e a sua tradição histórica" - por isso, sem fundamento para captar a sua própria vida em conceitos morais -, significaria "o fim da Humanidade". Aliás, "é sumamente improvável que a Humanidade, privada da sua consciência histórica e das suas tradições religiosas, por serem tecnologicamente inúteis, pudesse viver em paz, satisfeita com as suas conquistas".

A razão disso está em que os desejos do Homem não têm limites: "Podem crescer incessantemente, numa espiral sem fim de avidez." Mas, uma vez que o nosso planeta é limitado, somos forçados a limitar os nossos desejos. Ora, sem uma consciência dos limites, que "só pode provir da história e da religião", toda a tentativa de limitá-los "terminará numa terrível frustração e agressividade", possivelmente em grande escala. "Todas as tradições religiosas nos ensinaram ao longo de séculos a não nos vincularmos a uma só dimensão: a acumulação de riqueza e ocuparmo-nos exclusivamente com a nossa vida material presente." Assim, "a sobrevivência da nossa herança religiosa é condição para a sobrevivência da civilização".

A mais perigosa ilusão da nossa civilização consiste em o Homem pretender libertar-se totalmente da tradição e de todo o sentido preexistente, para abrir a perspectiva de uma autocriação divina. Esta "confiança utópica" e esta "quimera moderna" de inventar-se a si mesmo numa perfeição ilimitada "poderiam ser o mais impressionante instrumento do suicídio criado pela cultura humana". É que, "quando a cultura perde o sentido do sagrado, perde todo o sentido".

A religião não deve entrar no lugar que pertence à ciência e à técnica. Ela surge de outra dimensão, que "nos capacita para conviver com o fracasso, o sofrimento e a morte". Ela é o caminho que nos leva a "aceitar a derrota inexorável". Para a Humanidade, não há a última vitória, já que, "no fim, morremos".

Não se fundamentam os valores éticos na razão? "Evidentemente, os indivíduos podem manter altos padrões morais e ser a-religiosos. Mas duvido de que também as civilizações o possam fazer. Sem tradições religiosas, que razão haveria para respeitar os direitos humanos? Vendo as coisas cientificamente, o que é a dignidade humana? Superstição? Do ponto de vista empírico, os homens são desiguais. Como justificar a igualdade? Os direitos humanos são uma ideia a-científica."

As normas morais não podem assentar apenas no medo, segundo o modelo de Hobbes. Até certo ponto, "estamos programados instintivamente para a conservação da espécie". Mas não se pode esquecer que "a história do século passado mostrou inequivocamente que podemos, sem grandes inibições, aniquilar membros da nossa própria espécie. Por isso, precisamos de instrumentos de solidariedade humana, que não assentam nos nossos instintos, interesses próprios ou violência". "A falta da dimensão da Transcendência enfraquece o acordo social

 

NR

Sublinhados nossos.Muito folgaríamos poder passar da fase dos sublinhados à fase dos comentários meditados. Isto mesmo já fiz saber, por diversas vezes, a Anselmo. Uma verdadeira partilha, uma autêntica leitura da Palavra, aqui.Incapacidade própria ou o frenético apelo das horas do dia.Lá chegaremos um dia, à hora da tão desejada webmeditação destes verdadeiros webangelhos.

 

antónio colaço

 



publicado por animo às 14:52
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