Segunda-feira, 18 de Janeiro de 2010
WEBANGELHOS DE ANSELMO BORGES E BENTO DOMINGUES

 

Pe Anselmo Borges

In DN 16 Janeiro 2010

 

JONAS E CASSANDRA

 

 

1. O livro de Jonas, na Bíblia, enquadra-se no chamado género literário midráshico, portanto, sem pretensão de narrar acontecimentos históricos, mas com intenção didáctica. No caso, essa intenção é a superação do particularismo da salvação e a proclamação do amor e misericórdia universal de Deus. Ficou no imaginário popular e artístico sobretudo por causa dos três dias e três noites que Jonas passou no ventre de um peixe.
Jonas começou por não querer cumprir a ordem de Deus, que o enviou a Nínive: "Levanta-te, vai a Nínive, a grande cidade, e anuncia-lhe que a sua maldade subiu até à minha presença". Mas, depois de o peixe o ter vomitado em terra firme, Jonas foi, entrou na cidade e andou um dia inteiro a apregoar: "Dentro de quarenta dias Nínive será destruída". Ora, diz a Bíblia, "os habitantes de Nínive acreditaram em Deus, ordenaram um jejum e vestiram-se de saco, do maior ao menor. A notícia chegou ao conhecimento do rei de Nínive; ele levantou-se do seu trono, tirou o seu manto, cobriu-se de saco e sentou-se sobre a cinza". E publicou um decreto para que "cada um se convertesse do seu mau caminho e da violência que há nas suas mãos".
Então, "Deus viu as suas obras, como se convertiam do seu mau caminho, e, arrependendo-se do mal que tinha resolvido fazer-lhes, não lho fez". Aí, Jonas sentiu-se atraiçoado, pois a sua profecia não se cumpria. Andara a fazer o quê? "Ficou profundamente aborrecido com isto e, muito irritado, pediu ao Senhor: 'Peço-te que me mates, porque é melhor para mim a morte que a vida'".
2. Cassandra, a bela filha de Príamo, rei de Tróia, recusou os amores de Apolo, que, por isso, lhe impôs um castigo terrível: mesmo sabendo e proclamando a verdade, ninguém acreditaria nela. Assim - profetisa inútil -, foi em vão que previu a desgraça que ia cair sobre a sua cidade bem como as suas próprias amargas desventuras. Assistiu impotente à guerra e à ruína de Tróia e, conhecendo a sua própria desgraça, nada pôde fazer para evitá-la: acabou por ser violada por um guerreiro brutal, Ájax, foi entregue como escrava ao chefe inimigo, Agamémnon, e morta pela vingança de Clitemnestra. O seu destino foi patético e trágico.
O famoso filósofo Ernst Bloch juntou as duas figuras, para mostrar como a Bíblia se encontra sob o desígnio da liberdade - a profecia de Jonas não se cumpriu, porque é sempre possível arrepiar caminho e mudar -, enquanto o universo grego clássico é comandado pela fatalidade do destino.
3. No início de um novo ano, passadas as festas natalícias, reencontramo-nos com os problemas que entretanto tinham ficado esquecidos ou, pelo menos aparentemente, estavam em suspenso.
Assim, no quadro dos resultados das últimas eleições, há quem tema a instabilidade e mesmo a ingovernabilidade do país. Está aí, ameaçador, o défice das contas públicas. A dívida externa, ouço de quem sabe, pode tornar-se incomportável. E lembram a Grécia.
Há declarações temíveis de especialistas insuspeitos: a Justiça estava melhor no tempo do anterior regime. Ora, quando a Justiça não é eficaz nem célere, é de temer o pior. É insuportável o clima de desconfiança e suspeição reinante. Há corrupção, activa e passiva, e o sentimento de uma democracia triste e impotente.
Causa justa satisfação reconhecer nichos de excelência no domínio da investigação e do ensino. Mas quem, responsavelmente, se atreverá a dizer que é globalmente boa a situação da educação?
Os números do desemprego sobem assustadoramente, e ninguém sabe quando começarão a cair. O abismo entre os muito ricos e os muito pobres é intolerável, e é arrepiante saber que há milhares de idosos a passar abandono e fome e à espera de um lugar num lar do Estado. É por simples alarmismo que se deve advertir para o perigo de um tsunami social?
4. Seria trágico, se, quando do que precisamos é de ânimo e confiança, acabasse por ser Cassandra a impor-se, por falta de lucidez e coragem para arrepiar caminho e abrir um futuro novo
__________________________________________
 
 
Frei Bento Domingues
In Público 17.Janeiro 20010
Ser crente não significa ser irracional. A fé é a confissão de um homem racional

 

CEM POR CENTO RACIONAL CEM POR CENTO CRENTE
 
 
1.Aludi, no domingo passado, a “um teólogo feliz”,
mesmo na tormenta, chamado E. Schillebeeckx,
que passou, nas vésperas do Natal, defi nitivamente
para as mãos de Deus. Sob certo aspecto,
é verdade o que diz Fernando Pessoa: “Morrer
é só não ser visto” (1).
Quando isso acontece, o essencial fi ca sempre por dizer.
Apetece-me, no entanto, recolher e partilhar a confi ssão
desse teólogo cem por cento racional, não racionalista, e,
simultaneamente, cem por cento crente. É uma confi ssão,
não é uma argumentação. Essa percorre toda a sua obra.
Aqui e agora, é a primeira que me interessa, respeitando
o seu carácter oral, embora transcrita para a obra citada
no domingo passado.
Enquanto crente, sou racional, procuro argumentos
racionais e sinto-me, assim, um crente cem por cento. Não
há contradição. Ser crente não signifi ca ser irracional. A
fé é a confi ssão de um homem racional. A racionalidade
da fé deve ser sempre desenvolvida e clarifi cada. Toda a
minha teologia é teologia de um crente: Fides quaerens
intellectum. A razão humana deve viver à vontade no domínio
da fé. Apelar para a obediência e fechar os olhos
não é cristão, não é católico. Precisamos de ser crentes
racionais. S. Tomás é santo na sua racionalidade. Usa a
razão para abordar a fé. A racionalidade é cada vez mais
necessária, sobretudo, para reagir contra o fundamentalismo
que também mina, cada vez mais, as Igrejas. O
fundamentalismo, presente em certas comunidades cristãs,
leva ao obscurantismo. É um grande perigo porque
nega a razão humana.
É verdade que a razão humana não pode ser abandonada
a ela própria. Corre o perigo de se fechar num puro
positivismo. A fé cumpre a função crítica e conectiva para
não se cair no racionalismo e para que não se feche ao
mistério. Sem a razão humana, a fé torna-se fundamentalismo.
Ambas, a fé e a razão, cumprem a função de
crítica recíproca.
2. Outrora, falava-se de escolas teológicas. Havia mestres
e discípulos. Hoje, já não é assim. A ideia de fazer
escola está ultrapassada. As grandes sínteses, que duravam
séculos, são coisa que já não existe. Eu não escrevo
para a eternidade, mas para o ser humano de hoje que
se encontra numa situação histórica determinada. Tento
responder a questões. A minha teologia é datada, é
contextual. Deseja, no entanto, ir para além da situação
enquanto tal. Nas minhas obras, existe uma intenção
universal, pois esforço-me por ter em consideração o
porquê dos seres humanos de toda a humanidade. De
outra forma, aliás, não seria boa teologia. A actualidade
de uma teologia não se confunde com uma actualidade
efémera. Para outros tempos, outras teologias virão.
Estou contente de ter dito alguma coisa para o ser humano
de hoje e, talvez, também alguma coisa que interessará,
ainda, a geração futura. Quando uma teologia
pode alimentar a geração seguinte, é uma grande teologia
e assim continua a grande tradição teológica.
3. É difícil traçar uma linha de divisão nítida entre a
minha aventura pessoal e a minha vida de teólogo. Há
dois textos da Escritura que sempre me apoiaram e que,
ainda hoje, continuam a apoiar-me: “Estai sempre prontos
a responder a quem vos pede a razão da esperança que
vos habita” (1 Pedro 3, 15) e “Não apagueis o Espírito. Não
desprezeis as profecias. Examinai tudo, guardai o que é
bom” (1 Ts 5, 19-21).
É o Espírito que me fala através destes textos sagrados.
Por um lado, no esforço contínuo para me reorientar nas
reacções inesperadas, para as quais sopra o Espírito de
Deus; este mesmo Espírito deu, ao meu trabalho teológico,
um carácter de esperança, libertador e construtivo
que abre para a existência concreta, como muitos dos
meus leitores, para minha grande alegria, me fi zeram
saber, verbalmente ou por escrito.
Por outro lado, o Espírito foi também a fonte do inesgotável
carácter crítico dos meus escritos, da atitude crítica
que, até hoje, me acarretou um certo número de cartas
nas quais os meus irmãos cristãos me defi niram como
um “diabo em carne e osso”, “um lobo sob a pele do cordeiro”,
“um herético da pior espécie” e “um imigrado na
Holanda que para o bem da sociedade e da Igreja seria
melhor regressar ao seu país de origem”.
O meu trabalho científi cosignifi ca ainda, para mim,
de modo muito consciente,uma forma de apostolado
e, em particular, uma formade pregação dominicana
da Boa Nova: o Evangelhode Jesus, o Messias do
Deus libertador, eleito doEspírito.
Aprendi, no entanto,por experiência que, se a
religião é o maior bem doser humano e para o ser
humano, é também, muitasvezes, inteiramente manipulada
para humilhar e atépara torturar o ser humano
no corpo e no espírito.É por isso que, sobretudo
nos últimos anos, o meupensamento teológico preferiu
defender o ser humano,homem e mulher, contra
as exigências desumanasda religião, em vez de
a defender contra as nossasilusões de seres pecadores
que todos somos.Nos dois aspectos, crítico
e construtivo, do meu pensamentoteológico, procurei
testemunhar aos outros a esperança e a alegria que
vivem em mim. Sou verdadeiramente um homem feliz.
Em suma, só um ser inteligente pode acolher a fé; só
um homem de fé pode deixar a inteligência, em todos
os seus registos, viver em liberdade a multifacetada experiência
cristã.
(1) Inês de Barros Baptista, Morrer é só não ser visto, Planeta,
Lisboa, 2009
 
Frei BentoDomingues
O.P.
 
 

 



publicado por animo às 16:08
link do post | comentar | favorito

pesquisar
 
Março 2018
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
12
13
15
16
17

18
19
20
21
22
23
24

25
26
27
28
29
30
31


posts recentes

DA ARTE E DOS ESPAÇOS INE...

OBRIGADO, MANUEL

ANTONIO COLAÇO NO "VOCÊ N...

PE ANSELMO BORGES NOS ANI...

ANA SÁ LOPES NOS AAAANIMA...

ANA SÁ LOPES NOS ANIMADOS...

O OUTRO LADO DO AAANIMADO...

LISBOAS

CHEF PEDRO HONÓRIO OU AS ...

BALANÇO FINAL . JOAQUIM L...

REGRESSARAM OS AAANIMADOS...

IN MEMORIAM ANTÓNIO ALMEI...

PE ANSELMO BORGES NÃO TE...

MINISTRO CAPOULAS SANTOS ...

WEBANGELHO SEGUNDO ANSELM...

CARDIGOS, AS CEREJAS E O ...

trip - ir a mundos onde n...

´WEBANGELHO SEGUNDO ANSEL...

ANDRÉS QUEIRUGA EM PORTUG...

WEBANGELHO SEGUNDO ANSELM...

arquivos

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Outubro 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

tags

todas as tags

links









































































































































































































subscrever feeds