Terça-feira, 22 de Novembro de 2011
A FALA DAS GAVETAS . NOTAS PROVINCIANAS1.escreve ROGÉRIO CARVALHO

 

 

1

A prima Doroteia está sentada numa cadeira baixinha, de fundo de bunho e pernas de azinho, muito perto da tia Noémia, que envolve as pregas flácidas do corpo envelhecido, numa manta escarlate debotada pelos anos, e ambas, sossegadas e tranquilas, espreitadas pelo sol sem viço do final de uma tarde de outono, trocam entre si terríveis segredos murmurados.

De que falam as mulheres? Não delas, mas das outras e dos outros, e de coisas insignificantes e maliciosas, e de gentes conhecidas desde sempre, e da roda dos parentes, dos próximos e dos afastados, próprios e alheios.

Calmamente, enquanto os olhos miudinhos e feios saltitam entre o espanto e a comiseração, tecem os destinos e refazem o passado da realidade aldeã. A roda em que fiam as histórias é a mesma onde as parcas fiaram, com idênticos vagares, outros destinos.

 E prometem continuar amanhã, se o sol voltar, enquanto a chuva não as afastar do portal mágico em que se empenham, com zelo.

À porta da casa de xisto, os seus falares são de pedra, e tal como as lápides, pertencem ao tempo.

Rígidas, as línguas vão gravando, para sempre, uma epigrafia solene e desamparada.

Passaram há muito os umbrais do tempo.

 

Rogério Carvalho

 



publicado por animo às 17:41
link do post | comentar | favorito

VOLUNTARIADO. A RESPIRAÇÃO DA SOLIDARIEDADE


Finalmente, o belíssimo texto de Manuela Fabião no Colóquio sobre Voluntariado e que aqui reportámos.

Obrigado, Manuela, por partilhá-lo connosco.

antónio colaço

 

Sessão “ Dia internacional do voluntariado” – 18 de Novembro de 2011


  Cuidar foi, é, e terá de ser, uma relação orgânica e cúmplice entre homens e mulheres. Terá de haver uma continuidade de mim no outro que surja de forma complementar e não artificial, num estatuto de solidariedade, apesar das dificuldades inerentes aos defeitos e fraquezas humanas.
Sempre existiram crises mas hoje, a proclamada e repetida  “crise de valores” pode ser também uma forma de nos distanciarmos da realidade, por pensarmos que cabe à história global e determinista, modificar comportamentos e ficarmos reféns da impossibilidade de mudarmos o nosso destino
É difícil incorporarmos a necessidade de nos aproximarmos dos outros, de desejarmos estar com eles, principalmente quando precisam de ajuda. Considero que esta dificuldade de assumirmos  a importância da entreajuda está ligada a uma ainda deficiente  consciência cívica que deturpa essa mesma  atitude  que de normal passa a excecional. Uma educação no sentido da valorização intrapessoal , e da importância de nos completarmos com os outros, com certeza potenciará  a descoberta da  indiscutível complementaridade que nos define como seres gregários.
Sou otimista por natureza, e seria injusta se não referisse que na situação atual, há o aumento do número de voluntários, principalmente jovens, como pode ser comprovado neste hospital.
Com alguma experiência de voluntariado não hospitalar, acho que este último tem algumas  especificidades. É no contacto com os meus colegas voluntários com mais experiência que apreendo o seu saber adquirido ao longo de muitos anos e que muito me ajudou e ajuda a saber como é ser voluntária e a quem deixo o meu agradecimento.
O desconforto natural de estarmos perante doentes, pessoas debilitadas, fora do seu quotidiano, idosos e não idosos pese embora o afeto e carinho dos cuidadores profissionais sensíveis ao seu estado, mas naturalmente distantes do olhar de quem  no seu dia-a-dia preenche as suas referências. Como é necessário  e muito difícil transformar esse sentimento  de ausência real.
Mais do que descrever o que sentimos na complexa relação doente-voluntário, o importante é conseguirmos encontrar e saber alimentar da melhor forma aquela energia e vitalidade só comparáveis ao cadenciado e maravilhoso mecanismo da respiração, em que a sintonia entre o que o doente tem em receber e a minha capacidade de dar corresponderá à inspiração.
O 2º momento ( manter o ar que vai oxigenar os pulmões)poderá ser comparável à necessidade que tenho, como voluntária de manter a minha integridade física e mental face ao sofrimento  e possível degradação física em que o doente eventualmente se encontre.
O 3º momento (expiração – libertação de CO2), vai implicar uma ação, que no voluntariado  irá corresponder à ajuda ao doente(administração de alimentos, de um abraço, de um olhar, de uma palavra ou mesmo do silêncio).

Manuela Fabião



publicado por animo às 15:06
link do post | comentar | favorito

Sábado, 19 de Novembro de 2011
MATINAS

Lisboa.Tejo às 07.15

 

Obrigado.

antónio colaço



publicado por animo às 12:16
link do post | comentar | favorito

SER VOLUNTÁRIO É SABER OUVIR O OUTRO.A IGREJA DEVE FAZER MUITO MAIS DO QUE ESTÁ A FAZER,diz Mons Feytor Pinto.

Decorreu, ontem, nas instalações do Edifício Escolar da Faculdade de Ciências Médicas, no Hospital de S.Francisco Xavier uma inédita iniciativa, sob orientação da Dra Susana Parente,que juntou, pela primeira vez, voluntários dos hospitais do chamado CHLO-Centro Hospitalar de Lisboa Ocidental e que compreende os hospitais de S.Francisco Xavier,Egas Moniz e Santa Cruz.

No Ano Europeu do Voluntariado foi bom perceber que ,afinal, em tempo de crise há sempre gente disposta a dar-lhe a volta e arranjar um pouco do seu tempo para tornar menos doloroso o sofrido tempo daqueles que descem à cama do hospital.

Coube-nos coordenar um painel que contou com a presença de gente jovem da Associação de Leigos Voluntários Dehonianos e que nos trouxe relatos de uma missão africana.O que é que faz com que uma jovem economista,uma socióloga e uma psicóloga clínica abandonem o bem bom dos seus lares e partam para terras inóspitas onde falta tudo?No final dos seus relatos, uma linha comum a quase todos os testemunhos ouvidos durante a manhã:recebe-se sempre mais do que aquilo que se dá.

Dra Susana Parente, a primeira à esquerda, alma da inicitiva.

 

Mas o grande momento de partilha de testemunho de vida foi alcançado por Mónica Sousa, uma jovem brasileira senhora de uma capacidade de dar a volta à vida que se lhe apresentou com desafios terríveis, desde um assalto com inacreditável violência até ao combate a um cancro de mama.Mónica relatou que estando em Portugal sozinha, sem a presença dos pais, vivendo com o seu marido - um companheiro "dez estrelas" - encontrou numa senhora voluntária que nunca mais viu, o ânimo necessário para superar todos os desafios.Hoje é ela que faz do relato ainda algo emocionado da sua experiência, pontapé de saída para a superação de dificuldades por parte de quem passe por idênticas situações.

Têm página no Facebook em "Unidas Para Vencer"!

Por falar em ânimo, ouviríamos uma voluntária dizer que " a pessoa que está junto dos doentes tem de ter muito ânimo e não pode de maneira nenhuma ir abaixo junto dos doentes!".

2

Deu para perceber que na questão do voluntariado, mais do que disputadíssimos territórios de indesejáveis protagonismos, faz falta interligação entre as equipas técnicas, médicos e enfermeiros, com os voluntários. A uns e outros deve ser exigida formação, como muito bem assinalaria Mons Feytor Pinto, para que o acto de ser voluntário cumpra a sua mais nobre missão, a de comunicar.Saber comunicar, é então, saber ouvir.O outro é sempre o protagonista e jamais o contrário.

Juntar à mesa gente dos três hospitais foi para a Dra Susana Parente, a alma da iniciativa,o verdadeiro objectivo.Conseguido plenamente, dizemos nós.

Os resultados vão continuar a verificar-se no terreno, até porque, disse-nos, assiste-se a uma cada vez maior presença de gente jovem nestes grupos.

Afinal, nos dias da crise, a melhor maneira de a encarar é fazer com que um maior número de cidadãos se consciencialize de que, quanto maior for o número dos que a não temem, maior será o número dos que, juntos, a superarão de uma vez por todas.

Os nossos parabéns e um renovado obrigado pelo convite que nos fizeram

Estamos sempre disponíveis.A nossa forma de sermos, para já, também, voluntários.

No final, impossibilitados de ouvir mais testemunhos como desejaríamos, uma vez que o entusiasmo no Debate tomou conta de parte substancial da hora de almoço, falámos com Mons Feytor Pinto ele mesmo também com limitações de tempo e a quem agradecemos a disponibilidade!

De referir que, no final da sua intervenção, uma senhora de 80 anos levantou-se da assistência para agradecer a Mons Feytor Pinto por ter sido ele quem a motivou a ser voluntária.

OITENTA ANOS, sim, leram bem e ela aí continua nos nossos dias de hoje partilhando o sorriso que lhe bailava nos olhos!

antónio colaço

 



publicado por animo às 03:03
link do post | comentar | favorito

WEBANGELHO SEGUNDO ANSELMO BORGES

Pe Anselmo Borges

In DN,hoje

CRISE E OPORTUNIDADES (1)

Haverá palavra com que sejamos mais bombardeados do que a palavra crise?

Ela é a nossa perplexidade e angústia. O que vem aí? Ela é repetida concretamente desde 2008, por causa da crise financeira, que inevitavelmente acabou por estender-se à economia, e, agora, os terramotos sucedem-se sob o domínio voraz dos mercados, e ninguém sabe como tudo terminará. É preciso estar preparado para o pior.

Mas a crise é maior, pois é intrínseca à realidade. A realidade está permanentemente em crise, pois pertence à sua constituição. Pense-se na evolução. Há 13 700 milhões de anos foi o Big Bang, e a realidade, que é dinamismo, foi-se configurando, no quadro do acaso e da necessidade e passando, portanto, por crises constantes, por vezes até com becos sem saída, em estruturas cada vez mais complexas - a mais complexa que conhecemos é o cérebro humano.

 O que é facto é que avançou "oportunisticamente" e chegou até nós. Estamos cá. E há perguntas críticas: que vamos fazer com o genoma humano e as novas tecnologias, falando-se já em transhumanismo? E com a cibernética e a Net (rede ou labirinto?)? E com a ameaça ecológica? E com a globalização?

 O que é a crise? Pode ser iluminante ir ao étimo. Crise vem do verbo grego "krinein", que está também na origem de crítica, e significa distinguir, discernir, resolver um litígio, interpretar, explicar uma questão, julgar, apreciar, decidir. Enquanto termo técnico da medicina refere-se ao ponto alto e de viragem de uma doença. No alemão, há mesmo o verbo "kriseln", que só aparece impessoalmente - "es kriselt": está iminente e ameaçadora uma crise, difícil e decisiva.

 Mas o próprio étimo aponta já para uma possível oportunidade: de "opportunus - ob-portus": que impele para o porto.

"Opportunitas" (oportunidade) significa precisamente "ocasião favorável", e o advérbio "opportune", a tempo, oportunamente, vantajosamente. Estamos, pois, permanentemente em crise, porque a nossa identidade é narrativa: faz-se, desfaz-se, refaz-se... E isto acontece na evolução, com os indivíduos, com os grupos, com os povos. A Europa, por exemplo, está numa crise gigantesca. Afinal, o que é que ela quer? O que queremos ser?

Esta crise pode ser a oportunidade para pensar nisso e decidir em consequência. O que é que vai ser a Europa num mundo globalizado, se não for União europeia solidária? Torna-se insignificante. Uma Europa fragmentada fará erguer de novo no horizonte os fantasmas da guerra. Ora, não foi precisamente o desejo de pôr termo aos contínuos conflitos bélicos que levou os grandes estadistas fundadores, como K. Adenauer, J. Monet, R. Schuman, De Gasperi, ao projecto do que poderia e deveria ser a União Europeia? E não faz falta ao mundo a Europa social, dos direitos humanos?

 A primeira crise é a do nascimento. O bebé encontrava-se encantado no ventre materno, numa temperatura ideal e na paz do líquido amniótico. No entanto, tem de partir, e fala-se do primeiro trauma, precisamente o do nascimento. Mas não é essa a condição de possibilidade de conhecer os pais e admirar o mundo e crescer e construir uma história: a sua, com os outros?

Típica é a crise da adolescência - a idade crítica. Dá-se uma reconfiguração do cérebro do adolescente, que, perante a turbulência das emoções, ainda não está maduro para ser seu dono. Já não é criança, ainda não é adulto, mas precisamente essa crise é a oportunidade para crescer e tornar-se adulto.

Quem nega as crises no casamento? Mas delas não poderá nascer um amor maior, mais maduro?

Uma doença pode ser dramática mas, ao mesmo tempo, a oportunidade para reorientar a vida.

 Talvez se tenha andado demasiado distraído e é a hora de pensar no que verdadeiramente vale e no que vale menos ou pura e simplesmente não vale. No meio de todas as crises, reflectindo, o que está mesmo em questão é isso: pensar.

 O filósofo Ernst Bloch não se cansava de repetir: "Not lehrt denken": a necessidade ensina e obriga a pensar.

 Por exemplo: é no consumismo frenético que somos mais felizes?



publicado por animo às 01:46
link do post | comentar | favorito

Sexta-feira, 18 de Novembro de 2011
LISBOAS

 

40 ANOS DE LISBOA.

Foi em Novembro de 1971.

Não dava mais.

Para trás ficavam o Convento dos Frades Menores Capuchinhos do Ameal,Porto, e a Profissão dos Votos de Pobreza,Obediência e Castidade que daí a três anos me conduziriam ao pleno sacerdócio.

2.Ficaram os votos mas continua vivo o espírito do poverello de Assis.

Quem me diria que 40 anos depois o meu primeiro neto quase nascia em Novembro(estava prevsto mas antecipou-se uns dias) e, melhor, se chamaria FRANCISCO.

3.Aceitei o convite da Dra Susana Parente e hoje, pela manhã, no anfiteatro da Fac Medicina-Hospital S.Francisco Xavier, vou moderar um Debate no dia do Voluntariado sobre essa história do que é ser voluntário.

4.Com esta iniciativa principio as comemorações dos meus 40 anos por Lisboa que, espero, possam atingir a plenitude com uma Exposição de Artes Plásticas que entretanto preparo.

5.Convoquei esta imagem do Dia da Tomada de Hábito, no Convento de Barcelos (1968) para abrir o Debate a falar da história do Teresinha.

Aquando da aceitação do Convite, esta história tropeçou comigo, de imediato, na esquina das minhas tantas memórias dos dias em que,talvez, nunca tenha sido tão solidário.Voluntário.

6

Nas rotinas de Noviços vivendo um ano inteiro sem ver a família, completamente dedicado ao Amor de Deus entre os homens, cabia-nos visitar, entre outros, o Hospital de S.João de Deus, em Barcelos, para doentes com deficiência mental.

De entre eles, o Teresinha merecia a atenção geral.

Sempre sentado no banco de jardim em posição de buda, não parava de menear a cabeça para trás e para a frente quase ensaiando queda mais que certa.Naquela tarde perguntei-lhe,”então como estás, Teresinha?!”De imediato, a resposta veio certeira continuando, ainda hoje, tão presente como naquele dia:”Bem, FreiColaço.Sabe, esta noite sonhei que me apareceu um lagarto com asas e que me disse,Teresinha, forma-te em Bioquímicas e casa-te!”

7.Sei hoje que a felicidade do Teresinha se fazia, então, por poder contar a história dos seus sonhos pois tinha quem o pudesse ouvir, pelo menos por uns instantes todas as semanas.

 

O Teresinha sabia que podia contar connosco.

Para nós o Teresinha CONTAVA.

É só por isso que hoje posso contar a história do Teresinha.

Ser voluntário, se calhar, é saber que há sempre alguém que pode CONTAR connosco para lhe dizer que, afinal, apesar de doente,pobre, abandonado ainda e sempre é alguém que CONTA.

Alguém que tem direito a que contem com ele, com a sua doença, a sua inferioridade.

Ser voluntário, se calhar, é a melhor forma de se ajudar a si próprio.

 

PS

Estes “noviços” vão encontrar-se, amanhã, algures, no centro do país.

Tudo porque continuam a contar uns com os outros.

Obrigado.

antónio colaço



publicado por animo às 02:16
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito

MATINAS



publicado por animo às 02:16
link do post | comentar | favorito

Quinta-feira, 17 de Novembro de 2011
MATINAS

Lisboa.Tejo 0.630.

06.45

 

07.25

Sem palavras.

Todas as palavras de que me sinto capaz se rendem a Ti,Sol..

Que Paz.

Obrigado.

antónio colaço

 



publicado por animo às 10:48
link do post | comentar | favorito

VÉSPERAS

 

Na rua,madrugada feita,chegam os homens encarregados de recolherem os nossos restos,destes, alguns deles que nos deixaram de rastos nas últimas horas.

Vem,noite,toma nos teus braços as palavras de que se fizeram as últimas horas e leva-as de regresso a um mundo de onde elas próprias, se pudessem,nãodesejariampartir:centoedoze,sístula,tensão,dezasseisdez,sangue,capotten,concor,carvedilol,lofzazepato,pressurometria,adse,senha L041,compressa,egas moniz,esclerobion,piso três,clínica belem,sos,centoedoze,outravez,a que horas,baixe cabeça,estique pernas,tenha calma,vamos já sair,enganámo-nos na rua...
E no entanto, quantos com tempo e condições para continuar a desejar, Vem, Irmã Noite,nas tuas mãos entrego a Serenidade que me trouxeste, leva-a para aqueles que dela precisam...
Obrigado.

antónio colaço

 


publicado por animo às 01:48
link do post | comentar | favorito

Terça-feira, 15 de Novembro de 2011
VÉSPERAS

´

 



publicado por animo às 18:00
link do post | comentar | favorito

A FALA DAS GAVETAS . A METAMORFOSE escreve Rogério Carvalho

                       HISTÓRIA PARVA  -  A METAMORFOSE

Esta madrugada, ao acordar, descobri com surpresa e alvoroço que me tinha transformado num ser esquisito, estranho, muito estranho mesmo. Não da mesma forma que tinha afectado Gregor Samsa, o misterioso alter-ego de Franz Kafka, mas de uma outra forma, sem qualquer ponto de contacto com o facto narrado pelo escritor de Praga.

Gregor Samsa tinha-se transformado numa barata monstruosa, num insecto abominável, e permanecia aprisionado num esqueleto quitinoso que lhe dificultava os movimentos, mesmo os mais imperceptíveis.

Comigo, a situação foi diferente. Abri os olhos e reparei que a anormalidade começava pelo facto de dispor de um conjunto de membros, quase todos do mesmo tamanho, mas não exactamente do mesmo tamanho, todos cilíndricos, embora o calibre não fosse regular em todos eles: tendiam a afunilar-se no sentido das extremidades, as quais por sua vez, terminavam numa espécie de tentáculos curtos, cinco em cada uma delas. Por instantes, julguei-me um polvo, um enorme cefalópode abandonado entre os lençóis, mas cedo percebi que, quanto muito, só poderia ser metade de um polvo, pois só evidenciava quatro membros.

Como me chamará qualquer naturalista que venha (e virá inevitavelmente) a ser chamado a debruçar-se sobre o meu estranho caso? Octopus não pode ser! Talvez quatoropus se adeqúe com mais exactidão. Quatoropus é um nome que aprovo desde já, embora julgue que o provável naturalista não deixará de ficar confundido com os restantes tentáculos que rematam a extremidade dos membros. Bom, ele que se desembarace da situação, que a mim, neste preciso momento, já me parece demasiado confusa e melindrosa.

À medida que ia despertando, apercebi-me que esses membros estavam soldados a um tronco central, também ele cilíndrico, e também esse cilindro estava repleto de reentrâncias e protuberâncias estranhas. Os quatro membros não estavam implantados ao mesmo nível, tal como os braços de um polvo, mas emergiam dois a dois, aos pares, conferindo ao tronco central um grosseiro eixo de simetria. Ao olhar com atenção, reparei que tal simetria era apenas aparente, porquanto um dos lados evidenciava um ligeiro desenvolvimento em relação ao lado oposto. Muito ligeiro, é certo, mas tal não deixará de ser objecto de especial atenção por parte do olhar treinado do naturalista, cujo interesse pelo assunto será, certamente, inevitável.

Por fim, no preciso momento em que me apercebia de quão estranha era a situação, reparei que acoplado a esse tronco em forma de cilindro, amarrotado, se encontrava um sólido esferóide bastante desproporcionado em relação aos restantes elementos inventariados, pois a suas dimensões eram insignificantes, considerando a escala dos mesmos. A tal esfera não se implantava directamente no tronco, antes se apresentava pousada sobre um plinto baixo, facto que lhe conferia uma relativa autonomia em relação aos seus próprios movimentos. Sem ter uma total liberdade, conseguia rodar no sentido horizontal, uns quantos graus para a esquerda do eixo de simetria referido, e outros tantos, exactamente os mesmos, no sentido oposto. Os movimentos verticais eram igualmente complexos e não diferiam, no essencial, do atrás descrito.

Não me foi possível medir tais amplitudes, mas estou certo que os académicos o farão, pois é por demais conhecida a sua obsessão pelo rigor e pela medida. Dizem que o fazem em nome da Ciência, e eu acredito.

Este esferóide, tal como os restantes elementos, apresenta uma forma grosseira, pois nada corresponde às formas geométricas puras. Assemelham-se, correspondem-se, como cópias distorcidas dos modelos, mas sem conseguir reproduzir a perfeição do original. Para além do que se apresenta esburacado, pois contei-lhe sete orifícios, seis dos quais emparelhados dois a dois. O último, o solitário, que é sem dúvida o maior, está continuamente a agitar-se, produzindo movimentos irregulares, tal como se de uma anémona-do-mar se tratasse.

 

Desse orifício emergem sons, numa verdadeira cacofonia sonora. Não se assemelham ao melodioso canto das aves, nem ao balido das ovelhas ou ao latido dos cães, que são ritmados e repetitivos. Os sons ali produzidos apresentam um registo que oscila entre graves profundos e agudos estrídulos, combinados entre si produzindo sequências sonoras desagradáveis, quase agressivas e, no seu conjunto, absolutamente incompreensíveis.

A minha primeira impressão, ao aperceber-me do ser disforme em que me transformara, foi a de que ainda estava mergulhado no sono, e que tudo aquilo não passava de mais uma construção dos sonhos que, por vezes, me são dados a sonhar. É comum, nesses abismos da realidade, dar comigo a voar. Voo com incrível facilidade por sobre as casas e as árvores, sobre as cidades e as florestas, sobre os animais dos prados e a orla das praias. Parece ser de realçar que jamais tive um sonho em que voasse por sobre o mar, talvez porque a minha fobia em relação à água me iniba de sobrevoar as ondas oceânicas. Se calhar até gostava de ver os peixes voadores, o dorso húmido dos grandes cetáceos e as afiadas barbatanas dorsais das orcas e dos tubarões. Mas até hoje, os meus voos nocturnos tiveram sempre uma paisagem terrestre como fundo.

Mas não é só de voos que os meus sonhos se vestem. Neles consigo ser o que nunca fui: o soldado destemido, o cavaleiro garboso, o sedutor irresistível. Outras vezes sou o contrário de tudo isto, e transformo-me numa espécie de amálgama angustiada feita de sentimentos de culpa e de personalidades frustradas.      

De início não acreditei que tivesse atingido o estado de vigília, que tivesse abandonado a concha negra do sono e que me encontrasse, sem remissão, no mundo real. Não já no reino da fantasia, mas na face crua da vida.

Ao aperceber-me do meu estado, ao tomar consciência do ser absurdo em que me tinha transformado, compreendi que o meu EU sofrera uma profunda mutação. Aquele invólucro bizarro que passara a embrulhar-me o EGO, era-me tão estranho quanto repugnante. E essa repulsa não se confinava apenas aos aspectos morfológicos; a textura que todo aquele corpo tornava ainda mais assustadora a trágica situação em que me encontrava. De facto, o invólucro daquelas formas assustadoras vinha acentuar ainda mais o horror que me paralisava: revestido por uma pele clara, nem muito branca, nem muito escura, apresentava manchas irregulares de uma espécie de pelagem acinzentada. Em certos pontos não existia um único pelo, mas em contrapartida, outras zonas pareciam feitas para os concentrar. Por exemplo: metade da esfera, que será mais exacto ser designada por poliedro irregular, estava coberta por esta pelagem hirsuta, enquanto a parte restante se apresentava nua. A zona revestida apresentava pelagem longa, contrastando de forma clara com os pelos dispersos pelos quatro membros e pelo tronco, que eram mais curtos e muito menos densos.

Ao contrário da quitina de Gregor Samsa , aquele revestimento era mole e, em certos pontos, não de todo desagradável ao tacto, devido à sua relativa macieza. Sobretudo nas zonas mais despidas de pilosidades.

Após realizado o inventário de todos os elementos bizarros que o meu novo corpo evidenciava, tentei abandonar a cama, que estava num estado caótico devido à violência das transformações sofridas. Com cautela, aproximei aquele ser disforme da borda da cama, procurando perceber o funcionamento dos membros, a forma como se articulavam com o tronco, e se existia alguma lógica no seu funcionamento. Como cada um deles  se subdividia em dois segmentos com movimentos distintos, cedo compreendi que os mais longos e mais robustos deveriam ser os que se destinavam a suportar o peso do estranho conjunto que me tinha sido dado a habitar.

Por via das dúvidas, comecei a mover-me usando os quatro membros, arrastando o pesado invólucro pelo chão alcatifado do quarto, mas tal forma de locomoção revelou-se incómoda e pouco eficiente. Aos poucos deduzi que deveria adoptar uma postura vertical, o que, no início não se revelou ser fácil de concretizar; mas depois, à medida que ia ensaiando os primeiros passos, ia percebendo melhor a mecânica da coisa.

Neste preparo, hesitante e inseguro, abandonei o quarto e dirigi-me à cozinha, onde sabia que iria encontrar a minha mulher e a nossa filha. O que não sabia era qual a reacção que teriam quando reparassem no ser monstruoso em que me tinha transformado. Certamente que se iriam pôr aos gritos, num desmedido sobressalto provocado pelo choque de não reconhecerem naquela criatura medonho, a pessoa do marido e do pai.

Foi com imensa apreensão que me aproximei da mesa, sempre receando o pior. Qualquer reacção histérica não seria de espantar face ao inusitado da situação, sobretudo por parte da mais nova, a mais impressionável das duas. Para meu espanto, olharam-me sem qualquer sinal de estranheza, como se tudo estivesse normal, como se aquele invólucro tivesse alguma coisa a ver comigo. Perguntaram-me se tinha dormido bem, apenas isso: dormiste bem? E mais nada.

Puxei uma cadeira e sentei-me pesadamente, como se pousasse sobre o tampo almofadado um peso insuportável. Não sei se o cansaço se devia ao peso do fardo que me servia de habitáculo, ou apenas ao facto de ter criado uma expectativa demasiado elevada e que, misteriosamente, não desencadeou os resultados esperados.

Sobre a mesa, frente ao lugar que julguei ser o meu, estavam pousados os talheres e as louças, a par dos frascos de geleia e de uma cesta de pão em fatias. O aroma forte das torradas despertou-me o apetite. Como se tudo estivesse normal, espalhei a manteiga no pão e aguardei pelo café.

No íntimo sabia que ambas eram distraídas, mas nunca as supus tanto.

Rogério Carvalho             



publicado por animo às 18:00
link do post | comentar | favorito

EMERENCIANO CONVIDA

Casa da Galeria_Centro de Arte Contemporânea
R. Prof Dr. Joaquim Augusto Pires de Lima 33-37, 4780-449 Santo Tirso | 41*20'21,93''N  8*28'34,23''W
T 252 856 298 | F 252 855 286 | de Terça a Sábado, das 15h às 19h
******************************************************
inauguração: 19 de Novembro, às 17h
RASTOS. artes plásticas de EMERENCIANO. Entrada livre



publicado por animo às 17:58
link do post | comentar | favorito

JOAO PAULO COTRIM CONVIDA



publicado por animo às 17:57
link do post | comentar | favorito

LISBOAS

A ÂNIMO COMPLETAMENTE NAS NUVENS MAS...COM OS PÉS BEM ASSENTES NA TERRA!!!

 

Lisboa.Palácio da Ajuda.

Lisboa.Restelo.Alto dos Moinhos de Santana.

Incrível.No Alto dos Moinhos de Santana, um tufo de anafados murtunhos que me dão sempre uma trabalheira a descobrir lá para as bandas do meu Tejo superior, quer dizer, na zona dos moinhos de água, por terras de Ortiga e que servem, todos os anos, para tornar mais exótico o licor com que nos prendam.
A propósito, caríssimo Júlio Pires, deixa-me saudar em público - pela milésima vez?! - a excelência do teu preparado e que me deixa sempre....nas nuvens, tal como a série de imagens que agora finda!!!!Obrigado.
(O quê, Júlio,entendeste que estou a "cravar-te", ó balha-nos Deus...zz..z)

antónio colaço

 



publicado por animo às 17:56
link do post | comentar | favorito

MATINAS



publicado por animo às 17:54
link do post | comentar | favorito

pesquisar
 
Março 2018
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
12
13
15
16
17

18
19
20
21
22
23
24

25
26
27
28
29
30
31


posts recentes

DA ARTE E DOS ESPAÇOS INE...

OBRIGADO, MANUEL

ANTONIO COLAÇO NO "VOCÊ N...

PE ANSELMO BORGES NOS ANI...

ANA SÁ LOPES NOS AAAANIMA...

ANA SÁ LOPES NOS ANIMADOS...

O OUTRO LADO DO AAANIMADO...

LISBOAS

CHEF PEDRO HONÓRIO OU AS ...

BALANÇO FINAL . JOAQUIM L...

REGRESSARAM OS AAANIMADOS...

IN MEMORIAM ANTÓNIO ALMEI...

PE ANSELMO BORGES NÃO TE...

MINISTRO CAPOULAS SANTOS ...

WEBANGELHO SEGUNDO ANSELM...

CARDIGOS, AS CEREJAS E O ...

trip - ir a mundos onde n...

´WEBANGELHO SEGUNDO ANSEL...

ANDRÉS QUEIRUGA EM PORTUG...

WEBANGELHO SEGUNDO ANSELM...

arquivos

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Outubro 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

tags

todas as tags

links









































































































































































































subscrever feeds