Sexta-feira, 4 de Novembro de 2011
VÉSPERAS

 

O Francisco está em sua casa, finalmente.Dorme, agora, o seu primeiro sono montijense.Para os Pais o desejo de que toda a Serenidade do mundo conduza os seus dias.Agora que deixaram de ser meninos, que nunca deixem que o menino que criaram, alguma vez deixe de ser menino.
Boa noite,Francisco, Rita Colaço, Paulo Nuno Vicente.
Obrigado.

antónio colaço

 



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LISBOAS

 

Nada perder destas nuvens

 

O Céu aqui tão perto...

De que nuvens se faz o Céu?

De que Céu se faz o Céu?

 

Este Céu é meu

Mas se quiseres também pode ser teu.

 

antónio colaço



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A FALA DAS GAVETAS . O SENHOR HENRIQUES escreve Rogério Carvalho

            O SENHOR HENRIQUES

 

Usava uns passinhos comedidos, tipo pé-à-frente-pé-atrás, ensaiados em adolescências de seminário

    (corredores silenciosos, crispados pelos sussurros e pelas suspeitas),

e continuados pela vida fora em azáfamas de retiros espirituais, onde as desinteressantes palestras alternavam com a sombra fresca dos claustros devolutos.

Uns passinhos de passarinho, cauteloso e solícito ao mesmo tempo, se é que ao mesmo  tempo ambas as atitudes conseguiam coexistir. Quando se aproximava das pessoas, equilibrando aqueles passinhos saltitantes e discretos de bailarina valsando na passerelle, inclinava a cabeça a três-quartos, armava um sorriso formal

    (desses que são apenas uma crispação cínica dos cantos da boca e que deixam     perceber a dentadura, ao mesmo tempo que os olhos permanecem frios e     inexpressivos),

e só depois de composta a máscara é que cumprimentava, andando sempre em frente, sem jamais fazer menção de se deter, a cabeça a rodar no eixo do pescoço na direcção exacta da pessoa cumprimentada, a cabeça rodando cada vez mais à medida que se aproximava, que se cruzava com o outro, que o ia deixando para trás, mantendo por longo tempo, dez ou doze passinhos para diante, o mesmo sorriso crispado que levava o seu tempo a perder a eficácia. Só depois compunha o rosto fechado, a expressão neutra, anónima e quase hostil.

Ficavam aqueles passinhos miúdos para falarem de si, com propriedade e eloquência.

Nessas andanças de andarilho passeou a vida inteira, ora numa, ora noutra das margens de todas as ruas da cidade, que calcorreava a esmo. Fê-lo nos trajectos habituais, aqueles em que nada se retem porque tudo é igual, repetido e familiar, desde o volume dos prédios aos desenhos lavrados em cada porta, em cada janela, em cada empena, e onde tudo estava visto sem nunca ter sido realmente visto, porque as formas se reconheciam de uma maneira implícita, sem o recurso à observação e ao deslumbramento. E essas coisas tanto podiam ser a decoração de uma montra vista todos os dias, como um rosto habitual habitando uma eterna janela com cortinas, com o vento agitando essas cortinas.

Mas também o fez nos trajectos cautelosos, pelas ruas esconsas dos bairros marginais, pelas travessas estreitas e pelos becos escuros. Porque os receava e os temia, mas porque a curiosidade era mais forte. Embrenhou-se por escadinhas íngremes com corrimão de ferro ao meio, onde os homens em camisolas de alças desbotadas jogava, às cartas, e as mulheres, regateiras, prostitutas, maltrapilhas, se entretinham em eternas discussões de vizinhas agastadas.

A tudo se habituara o senhor Henriques, homem de vagares e de segredos

     (daqueles que existem mais para mascarar o vazio interior do que para esconder o     que quer que seja),

sujeito anónimo e sem rosto, senhor de uma vida onde nada existia que fosse digno de nota. Havia quem dissesse que ele tinha morrido à nascença, sem que ninguém desse por isso. Que crescera devagar, como todas as crianças da sua idade, mas que crescera dentro de um corpo defunto, de um cadáver insepulto que, sem a putrefacção da carne, se movia mais por obediência às forças mecânicas dos ossos e dos músculos, do que aos ditames da alma.

E todavia, numa tarde de chuva miudinha, daquela que se instala nos ossos e os corrói como se fosse ácido, aconteceu-lhe o impensável: deu por si a flutuar. Ao princípio foi mais uma sensação imperceptível, uma leveza do corpo e do espírito que se materializava apenas a uns escassos milímetros acima do passeio. Depois de refeito do susto

    (ou da surpresa, que é quase a mesma coisa),

percebeu que tinha atingido o limiar da bem-aventurança. Movia-se agora sem um som, ligeiramente acima de toda a gente

    (o que lhe dava um prazer enorme, porque sempre transportara uma figura meã, a par     de um desmedido complexo de inferioridade),

como uma folha seca empurrada pelo vento. Ou talvez mais como uma pena de ave, ligeiramente desequilibrada, subindo e descendo em movimentos longos, ondulantes e ritmados.

Os passinhos discretos deram então lugar ao deslizar silencioso de um patinador, riscando sem ruido a superfície do gelo. O senhor Henriques exultava. Aventurou-se a outros destinos, a outras paragens. Por onde andava

    (em boa verdade não andava, flutuava),

deixava um rasto de admiração, um sussurro de espantos, um murmúrio de deslumbramentos.

Com o tempo, julgou-se capaz de uma maior elevação: a curta distância que o separava do solo parecia-lhe cada vez mais insignificante e banal: queria voar. Ambicionava o voo tranquilo das grandes aves que planam, sem esforço, nas tardes nítidas dos verões. Aquilo que possuía nem chegava a um salto de pardal, era apenas um truque de magia. Ou mais provavelmente, uma praga rogada por uma alma vagabunda. Ou uma maldição. Ou talvez, e apenas, o mau-olhado dos invejosos.

Mas as tentativas para se elevar nos céus, frustraram-se. Apesar dos ensaios cada vez mais temerários, não conseguiu ultrapassar aquela espessura mínima de vazio que se estabelecera entre si e o mundo que o envolvia. Obrigou-se, por isso, a uma auto-aprendizagem rigorosa, pois jamais poderia beneficiar das experiências alheias, prisioneiro que estava da especificidade do seu caso. Assim, para se sentar

    (mesmo à mesa solitária das suas refeições habituais),

tinha que se prender à cadeira com uma pequena âncora de prata que mandara fazer expressamente para o efeito, e que trazia presa a uma corrente antiga e que ostentava, com orgulho, por sobre o colete do eterno fato de alpaca cinzenta.

 Envolto na sua almofada isoladora sentia-se, por fim

    (e há quanto tempo o desejava),

a salvo de qualquer contacto com os seus semelhantes: os poucos parentes, os raros amigos, e os escassos conhecidos.

Ao senhor Henriques, com o estofo protector que o distinguia das restantes criaturas, estava-lhe aberto o caminho para a concretização da sua secreta vocação: podia, por fim, dedicar-se a emprestar dinheiro a juros.

 

Rogério Carvalho

 

PS

1.Para quando uma foto tua, Rogério?

2.As tuas histórias começam a desafiar-me para tentar uma ilustração...Até lá, mesmo que possa ser redutora, não encontrei melhor do que esta imagem do Diácomo Remédios - uma das mais bem conseguidas personagens de Herman no seu melhor tempo...

ac



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MATINAS

 

Aguarda edição



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Quinta-feira, 3 de Novembro de 2011
VÉSPERAS

Chamo-me Micas e estou aqui a olhar para esta geringonça há mais de meia hora.

O meu dono deixou-se dormir mas antes pediu-me que viesse aqui "postar" pedindo a todo os seus amigos que desculpassem esta continuada ausência.

Ontem, um amigo dele, sim, que eu bem vi, disse-lhe se ele agora andava a transformar a ânimo numa agência funerária- ...pois era notícias de mortos a toda a hora!!!

O meu dono ficou um bocado abalado uma vez que todos os seus minutos nos últimos dias são para tratar do apoio a uma nova vida, o seu neto Francisco - ainda não me deixam aproximar dele por causa do raio dos meus pêlos!!!- e é só por isso que ele ali está a descansar.

Apesar de uma simples e inofensiva gata, também eu tenho os meus dias contados mas aprendi com o meu dono a viver um dia de cada vez e a saber que a morte só nos entristece se não soubermos morrer antes dela, ou seja, viver INTENSAMENTE cada minuto.

É o que eu faço, aqui especada sem saber como...QWERTar!!!

QWERt o quê?

Isto é alguma coisa de se comer?!

Obrigado.

antónio colaço



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a

a



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Quarta-feira, 2 de Novembro de 2011
JOÃO CHAMBEL, ESTAMOS CONTIGO E O TEU FRANCISCO CONNOSCO PARA SEMPRE!

Um grande abraço ao meu querido amigo João Chambel Isidro , extensivo a sua mulher, a Prazeres, e toda a família, no momento em que tenho conhecimento de uma notícia que só estamos preparados lá muuuuuito mais para a frente.

No momento em que celebrava a vinda de um outro Francisco, meu neto,às 0.20 da madrugada de sexta, 28 de Outubro, duas horas depois,falecia Francisco Chambel, 18 anos, após heróica resistência a doença prolongada.

 

Aqui fica, João, um pedacinho da minha Alegria para juntares à Coragem e à Fé de que o teu Francisco continua entre nós numa Eternidade que não sabemos como é mas em que acreditamos por essa mesma Fé!

Ânimo!

2

Em Dia de Finados, e no solidário contexto de amizade para com o nosso amigo João Chambel, deixo-vos aqui o link de uma grande reportagem assegurada pelo Manel Vilas Boas, meu amigo e colega de alguns de nós em Valadares/Porto, emitida na TSF sobre os Dias do Luto.
Estamos sempre a aprender!
Para que a dor não aprenda a prender-nos a ela e sim a libertarmo-nos dela, aqui fica o link!

http://www....tsf.pt/PaginaInicial/Vida/Interior.aspx?content_id=1924369

Obrigado Manel, pela ajuda
antónio colaço

 

 



publicado por animo às 21:36
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Terça-feira, 1 de Novembro de 2011
BOLINHOS,BOLINHOS JÁ ESTÃO PRONTINHOS....

..AQUI MAIS ABAIXO!!!

Hum, que cheirinho a mel, nozes e erva doce!!!!

E tens lá a receita!!!!

antónio colaço



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MATINAS

TEM 500 ANOS este pormenor do meu amigo Michelangelo Buonarroti e está estampado na Capela Sistina, que não pude visitar, por estar encerrada, naquela saudosa segunda-feira de Páscoa de 2003.
Mas.....

TEM CINCO MINUTOS, esta imagem, e foi feita cinco dias depois de o Francisco, meu neto,ter vindo a este mundo.

É, de facto, um gesto tão criativo quanto o da sistina "Criação" porque ambos fruto do mesmo Acto Criador!.
Sim, hoje foi o primeiro dia em que pude pegar ao colo o meu amado Francisco, aproveitando esta paragem pela casa dos avós, a caminho da sua morada.
Está feita a passagem do testemunho e um dia, Francisco, quando repetires o gesto com o teu neto, perceberás como fomos Criados para experimentar a sensação de partilha com o Criador!
Obrigado.

antónio colaço



publicado por animo às 15:06
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