Segunda-feira, 27 de Setembro de 2010
WEBANGELHO DE FREI BENTO DOMINGUES

In Público, ontem

 

ELOGIO DOS GESTORES CORRUPTOS

 

Nenhum servo  pode servir a dois senhores. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro

 

Na missa do domingo passado, coube-me ler

uma parábola de Jesus, contada por São Lucas

e que passo a reproduzir: “Naquele tempo, disse

Jesus aos seus discípulos: ‘Um homem rico

tinha um administrador que foi denunciado

por andar a desperdiçar os seus bens. Mandou-o chamar

e disse-lhe: ‘Que é isto que ouço dizer de ti? Presta

contas da tua administração, porque já não podes continuar

a administrar.’ O administrador disse consigo:

‘Que hei-de fazer, agora que o meu senhor me vai tirar

a administração? Para cavar não tenho força, de mendigar

tenho vergonha. Já sei o que hei-de fazer, para que,

ao ser despedido da administração, alguém me receba

em sua casa.’ Mandou chamar um por um os devedores

do seu senhor e disse ao primeiro: ‘Quanto deves ao

meu senhor?’ Ele respondeu: ‘Cem talhas de azeite.’

O administrador disse-lhe: ‘Toma a tua conta: senta-te

depressa e escreve cinquenta.’ A seguir disse a outro:

‘E tu, quanto deves?’ Ele respondeu: ‘Cem medidas de

trigo.’ Disse-lhe o administrador: ‘Toma a tua conta e

escreve oitenta.’ E o senhor elogiou o administrador

desonesto, por ter procedido com esperteza.”

Há parábolas do Novo Testamento que parecem guiadas

por um propósito de enervar alguns grupos de ouvintes,

em vez de procurar a sua benevolência como

manda a boa retórica. A intriga, tecida de paradoxos

e até de situações imorais, punha em

causa a ortodoxia das rotinas.

Na leitura, fi z de conta que a parábola já tinha

chegado ao fi m e que ia começar a homilia.

Senti um mal-estar na assembleia.

Através dos meios de comunicação, a nível internacional

e nacional, muitos gestores de empresas

e bancos são acusados de terem lançado

muitos milhões de pessoas no desemprego. Vir,

agora, o Evangelho elogiar o comportamento

do administrador corrupto e corruptor, era de mais!

A parábola não tinha chegado ao fi m, pelo contrário:

“De facto, os fi lhos deste mundo são mais espertos do

que os fi lhos da luz, no trato com os seus semelhantes.

Ora Eu digo-vos: Arranjai amigos com o vil dinheiro, para

que, quando este vier a faltar, eles vos recebam nas moradas

eternas. Quem é fi el nas coisas pequenas também

é fi el nas grandes; e quem é injusto nas coisas pequenas

também é injusto nas grandes. Se não fostes fi éis no que

se refere ao vil dinheiro, quem vos confi ará o verdadeiro

bem? E se não fostes fi éis no bem alheio, quem vos entregará

o que é vosso?”

Finalmente, atirava a matar: “Nenhum servo pode servir

a dois senhores, porque, ou não gosta de um deles e

estima o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro.

Não podeis servir a Deus e ao dinheiro.”

No missal, o texto acabava realmente aqui, mas omitia

o fracasso de Jesus: “Os fariseus, amigos do dinheiro,

ouviam tudo isso e riam-se dele.”

É verdade que Cristo não se notabilizou na gestão fi -

nanceira de qualquer empresa ou banco. Foi, aliás, um

grupo de mulheres que subsidiou o seu projecto (Lc 8, 3)

e Judas, a quem estava confi ada a bolsa comum, foi acusado

de ladrão... Também não consta que, hoje, Jesus seja

muito invocado nas Faculdades de Gestão e Economia,

mesmo nas Universidades Católicas.

Se, na parábola citada, o administrador corrupto é louvado,

não é por ser corrupto, mas por se mostrar esperto

ao ver a sua posição ameaçada. O que Jesus lamenta é,

precisamente, a falta de esperteza e de audácia dos chamados

ao serviço das boas causas, isto é, “os fi lhos da

luz”. As boas causas, mal servidas, fi cam desautorizadas,

assim como os seus caminhos. De boas intenções está o

Inferno cheio. A Doutrina Social da Igreja, carregada de

altíssimos e generosos princípios, não tem encontrado,

nos milhares de economistas e gestores católicos — e empresários

— do mundo inteiro e mesmo cá, em Portugal,

vontade de investigar e encontrar alternativas à economia

e à gestão que nos perdem. Por que será que a infl uência

do Evangelho, mesmo nas Universidades Católicas, não

leva os melhores alunos e professores a estudar e a criar

formas de economia e de gestão que se inscrevam na “luta

contra a pobreza e no amor preferencial da Igreja pelos

pobres” de que falou João Paulo II em Puebla?

Jesus chega ao fi m desta parábola com a urgência de

uma opção fundamental para os seus discípulos: “Não

podeis servir a Deus e ao dinheiro.” Tinha começado a

sua pregação pela resistência activa à tentação do poder

absoluto do dinheiro que comanda a economia, a política

e a religião, o nosso quotidiano.

Quando, porém, a parábola fala de servir a Deus como

um absoluto, não é para fazer dele o rival da felicidade

humana nem para dizer que os bens deste mundo, que

se compram e vendem com o “vil dinheiro”, sejam um

mal. O que a generosidade de Deus não pode tolerar é

que se torne privilégio de alguns o que deve estar ao serviço

de todos. Servir “o dinheiro” e o que ele consegue,

como um absoluto, é deixar-se escravizar pelos êxitos

que envenenam o mundo, sobretudo pelo comércio das

armas e dos seres humanos.

Não admira que “os fariseus, amigos do dinheiro”, ao

ouvirem tudo isto, continuem a pensar que Jesus é um

ingénuo!

 



publicado por animo às 15:53
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