Quarta-feira, 29 de Dezembro de 2010
WEBANGELHO DE FREI BENTO DOMINGUES

 

In Público de 26 Dezembro

Seja onde for, o ser humano reduzido à febre de investir e consumir andará sempre consumido

 

MEMÓRIA PARA O FUTURO INCERTO

 

1. Não venho fazer um balanço de 2010. A conclusão

do livro de José Manuel Rolo, sobre os

labirintos da crise financeira mundial, mostra

que o capitalismo, ao contrário das suas vítimas,

desloca-se e transforma-se, mas não morre: “Parece

ser legítimo afirmar que esta crise, que não dá sinais

convincentes de querer abrandar, além dos incalculáveis

prejuízos que provocou por esse mundo fora, teve três

consequências fundamentais: decretou, espera-se, a falência

do capitalismo financeiro liberal desregulado, de

raiz anglo-saxónica com sede em Wall Street e na City de

Londres e ramificações nas restantes principais praças

financeiras mundiais; confirmou ou fez emergir outros

modelos de organização da vida económica, todos de raiz

capitalista, que se perfilam como alternativas à ‘economia

de casino’ e que vão desde o modelo liberal regulamentado

aos modelos nórdicos, à economia social de mercado

alemã e ao modelo chinês de capitalismo de Estado com

larga participação da iniciativa privada; e provocou o

primeiro grande abalo da supremacia do Ocidente e da

hegemonia dos EUA no mundo em favor da China e de

mais dois ou três países emergentes” (1).

Seja onde for, o ser humano reduzido à febre de investir

e consumir andará sempre consumido.

 

2. Feito este registo, não queria passar para 2011

sem referir outros livros importantes para a nossa memória. Destaco,

em primeiro lugar, o trabalho admirável de Mário Brochado Coelho sobre

a confluência de cinco tipos de grupo de intervenção cultural, social e política dos anos 60,na Confronto, Cooperativa Cultural do Porto:

um grupo de católicos portuenses relacionados

com os dominicanos do Convento de Cristo Rei;

um conjunto de jovens regressados da guerra

colonial; estudantes e padres frustrados ou insatisfeitos

com a sua experiência na JUC, na Juventude de Cristo Rei

e até com a própria Igreja Católica; um grupo organizado

de estudantes universitários, centrado, especialmente,

na Faculdade de Engenharia da UP; outros ainda, provenientes

de outras áreas, discordantes da actuação das

oposições clássicas e procurando novas vias de actuação.

Esta obra apresenta a sua criativa actividade durante seis

anos, de 1966 até à sua extinção e encerramento, em 1972,

por ordem do Governo Civil.

Sem poder reproduzir os diferentes aspectos do seu

importante legado, importa sublinhar que foi um lugar de

diálogo entre pessoas, ideias e grupos diferentes, situados

no quadro mínimo de defesa dos direitos humanos e oposição

política ao regime fascista de Salazar e Caetano. Foi

igualmente um lugar de tolerância ideológica e religiosa. A

Confronto serviu de estágio para muitas e muitos que nela

aprenderam a trabalhar em colectivo, a procurar meios

práticos de acção junto da população, a discutir e decidir

democraticamente, a viver de forma menos limitada os

seus sonhos de futuro. Nesta cooperativa, geraram-se múltiplas

ideias, situações, programas e perspectivas (2).

Na celebrada biografia de Sá Carneiro, escrita por Miguel

Pinheiro (3), é destacado o papel deste político na

constituição da Confronto, elaborando a primeira minuta

dos estatutos e sendo escolhido para primeiro presidente

da assembleia geral. Só deixou a Confronto, em 1969, para

entrar na chamada Ala Liberal da Assembleia Nacional,

por julgar opções incompatíveis.

 

3. É ainda no registo da memória que se inscrevem

as intervenções de D. Manuel Clemente,no campo plural da

cultura – entre 2009 e 2010 – agora publicadas (4). Neste magnífico

livro de esperança fundada, o bispo do Porto

apresenta-se como um “optimista realista”. É com olhos

de historiador e de pastor que vê a Igreja em Portugal e

no mundo. Não é uma reflexão de filosofia portuguesa

nem de teologia da história. São reflexões sobre a actualidade,

contextualizando-as, mediante olhares sobre o

nosso passado, para sermos lúcidos diante de um presente

que nos abra o futuro. Este livro é uma convocatória

para a intervenção dos cristãos na sociedade, apontando

exemplos, sem amaldiçoar quer a Igreja quer o mundo

e marcando, sem ingenuidade nem amargura, onde se

unem e se distinguem.

Nas suas “Boas-Festas” de Natal, este bispo oferece

companhia, com os cristãos católicos da Diocese do

Porto, para uma caminhada e explica: como “cristãos”,

referimo-nos a Cristo; como “católicos”, referimo-nos a

toda a gente, sem excepção, a todos aqueles que aceitam

a nossa companhia na estrada da vida. Ao fazer este

convite, recorda o que Bento XVI disse, no Porto, no

passado mês de Maio, num estilo pouco habitual na boca

de eclesiásticos: nada impomos, mas sempre propomos.

Propomos Aquele que um dia nos propuseram a nós e

sempre nos comunica esperança, companhia e paz: Jesus

Cristo! Quando celebramos de novo o nascimento

de Jesus, reforçamos a convicção de que Ele continua

connosco, “nascendo” em cada acto de solidariedade

verdadeira e atenção aos outros.

Terminamos um ano, entraremos noutro, enquanto nos

deixarem apanhar o comboio do tempo. Bom Ano!

(1) Cf. José Manuel Rolo, Labirintos da Crise Financeira Internacional

(2007-2010), Cosmos, 2010.

(2) Mário Brochado Coelho, Confronto. Memória de Uma Cooperativa

Cultural. Porto 1966-1972, Porto, Ed. Afrontamento,

2010.

(3) Miguel Pinheiro, Sá Carneiro, Esfera dos Livros, 2010.

(4) Manuel Clemente, Porquê e para quê? Pensar com Esperança

o Portugal de hoje, Assírio & Alvim, 2010

 



publicado por animo às 11:18
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