Segunda-feira, 10 de Janeiro de 2011
WEBANGELHOS DE ANSELMO BORGES E FREI BENTO DOMINGUES

 

Pe Anselmo Borges

In DN 8.01.2011

 

Os dias de Natal são especiais. Há uma atmosfera diferente, o melhor de nós pode revelar-se: mais proximidade, mais intimidade, mais amor, mais solidariedade. Directa ou indirectamente, há uma presença inegável: o nascimento de um Menino, com "a mensagem mais bela e revolucionária da história mundial", no dizer de Heiner Geissler, que foi ministro do Governo Federal da Alemanha e que escreveu um livro admirável precisamente com o título: "O que diria Jesus hoje?"

Mesmo se muitas vezes os que se reclamam de Jesus fizeram da sua mensagem um Disangelho, como disse Nietzsche, ela é real e verdadeiro Evangelho, notícia boa e felicitante.

Essa mensagem tem na sua base a afirmação de que é o ser humano, com a sua dignidade inviolável e fundamentada em Deus, que ocupa o centro de toda a actividade política e económica. Essa dignidade e os direitos que dela derivam constituem o critério de todas as leis, mesmo das leis "divinas", e o fundamento para a convivência em igualdade de todos os seres humanos, independentemente do sexo, cultura, etnia, religião, classe, nação, estatuto social ou jurídico.

O amor a Deus sem amor ao próximo é uma ilusão, e este amor ao próximo não é platónico, pois tem de ter tradução prática concreta - dar de comer, de beber, de vestir, visitar o doente e o preso -, e supera as barreiras culturais, nacionais, religiosas. Próximo é o próprio inimigo em dificuldade.

Os seres humanos e os seus interesses estão antes dos interesses do capital. O capitalismo neoliberal não está de acordo com o Evangelho e "constitui um crime contra milhares de milhões de pessoas que têm de viver na pobreza, na doença e na ignorância". "Quem transforma o valor na bolsa e a cotação das acções de uma empresa em algo absoluto e quem atribui importância, em termos económicos, apenas aos interesses do capital faz parte das pessoas que, como diz Jesus, possuem muito dinheiro e para as quais será difícil entrar no Reino de Deus." Os mais de dois mil milhões de cristãos têm, pois, de formar uma força impulsionadora de uma nova ordem económica mundial com base na justiça.

 

__________________________________

 

FREI BENTO DOMINGUES

__________________________________

 

1. Um atentado, em Alexandria (Egipto), à saída

da Missa do Ano Novo, contra cristãos coptas,

matou 23 pessoas e feriu muitas outras. O atentado

ainda não foi reivindicado. O governador de

Alexandria, Adel Labib, não hesitou em apontar

o dedo à Al-Qaeda. Copta signifi ca egípcio. A Igreja cristã

copta tem as suas raízes em Alexandria desde meados

do século I. Não é uma intromissão tardia no mundo muçulmano!

O importante, agora, é a solidariedade activa

com os perseguidos. A perseguição provoca a emigração,

que tem consequências graves e dolorosas para todos.

Atinge todas as comunidades no mundo árabe, sobretudo

no Líbano, Síria, Palestina, Jordânia, Egipto e Iraque,

esvaziando esses países da presença cristã.

Com a emigração perde-se, pouco a pouco, o pluralismo

e a diversidade desse mundo. Por esse caminho,

chegará o momento em que nem sequer fará sentido

falar de diálogo islamo-cristão no Médio Oriente. Ora,

como diz o Courrier OEcuménique du Moyen-Orient 55

(Cf.: www.mec churches.org), esse diálogo envolve a vida

social, as culturas e as consciências, pois concretiza-se

nos diferentes aspectos do tecido da vida quotidiana

nas sociedades árabes.

O resultado da emigração forçada dos cristãos será

uma sociedade monolítica, privada da diferença. No

imaginário universal, o Médio Oriente tornar-se-ia uma

sociedade árabe e muçulmana face a uma sociedade europeia

dita cristã, embora a Europa e a América sejam,

tendencialmente, laicas com uma grande diversidade

religiosa. Num Médio Oriente esvaziado dos seus cristãos,

qualquer pretexto seria propício para um novo choque

de culturas, de civilizações e até de religiões.

2. Esse panorama real e hipotético é muito incompleto.

Existem outras difi culdades para

a paz no Médio Oriente.

Na opinião de Hans Küng – grande obreiro

da Ética Global –, Israel poderia transformarse

numa ponte para o entendimento pacífi co. O sonho

de Theodor Herzl cumpriu-se, apenas, pela metade:

Israel tem uma terra, mas não tem paz.

Na realidade, a Palestina não era uma terra sem um

povo para onde pudesse – sem mais nem menos – emigrar

um povo sem terra. Há uns bons mil anos residia lá uma

população árabe muçulmana. A questão palestina constitui,

por assim dizer, a sombra do Estado de Israel. Em

cinco décadas, cinco guerras! Mas, hoje, também muitos

israelenses compreendem que um povo de apenas seis

milhões de judeus não poderá prosperar se não viver em

paz com os 140 milhões de árabes que o rodeiam. Também

os palestinos têm direito a um Estado próprio. Na

verdade, só poderá haver paz no Médio Oriente se, de um

lado e de outro, forem desmontados os ressentimentos

étnico-religiosos e as agressões. Mais do que em qualquer

outro lugar, vale, aqui, a frase: não existirá paz entre as

nações, se não existir paz entre as religiões! (1)

Régis Debray, depois de um livro muito pouco ingénuo

sobre a “Terra Santa”, publicou, no ano passado, uma

carta polémica dirigida a um amigo israelense, Elie Barnavi.

Não se resigna à ideia de que uma sociedade tão

evoluída possa tornar-se uma fortaleza fundamentalista

(2). Confessa que estava farto de ouvir a antífona dos

diplomatas e dos políticos: “O que dizes é verdade, mas

não se pode dizer.” Porque razão um francês não teria

o direito de escrever o que um israelense diz na rua, no

café ou lê no seu jornal? Este estranho pudor, mistura

de culpabilidade, de intimidação e de bons sentimentos,

não serve a causa que pretende servir. Alimenta o antisemitismo,

nutre o ressentimento contra o protegido do

Ocidente, que tem sempre por nulas ou inexistentes todas

as resoluções da ONU. Não será o papel de um intelectual,

francês ou israelense, destapar os tabus da tribo?

Adianta que o fi nal do seu livro é, talvez, demasiado

optimista, pois, “nesse clima, muitos dos meus amigos

judeus colocam a si próprios questões existenciais radicais.

Perguntam, simplesmente, se Israel, apesar da

sua vitalidade económica, poderá sobreviver a longo

prazo. Têm razão. É por isso que importa pegar o touro

pelos cornos” (3).

3. Há 50 anos (25.12.1961), foi convocado o Concílio

Vaticano II pelo Papa João XXIII, o Papa

da Pacem in Terris. Uma das viragens mais

importantes e mais difíceis desse concílio

foi o reconhecimento da liberdade religiosa

que Pio IX tinha anatematizado. Como escreveu Bento

XVI, continua a ser um caminho indispensável para

a paz e o coração dos Direitos Humanos, como

dizia João Paulo II. Não é de admirar que, ainda hoje,

seja tão difícil aceitar as suas consequências.

A marca do Vaticano II não é feita só pelas viragens

que fez, mas pelas viragens a fazer para não voltar atrás.

O aggiornamento é algo que

tem de ser continuamente empreendido à luz dos sinais

dos tempos em mudança. Esta perspectiva só foi possível

porque a Igreja abandonou a ideia de ser o centro de tudo.

Foi-se descentrando para Jesus Cristo, para as outras

Igrejas cristãs, para as outras religiões não cristãs e para o

mundo, nas suas tristezas, alegrias e esperanças.

No Vaticano II, foram reencontrados, em plena actualidade,

os caminhos de Deus e do mundo, abertos

pelo Baptismo de Jesus e pelo Pentecostes da Igreja, em

banhos do Espírito Santo.

(1) Cf. Hans Küng, Religiões do Mundo, Multinova, 2004, p.

208-209. Este autor tem uma vasta obra, em três volumes,

sobre o passado, o presente e o futuro do Judaísmo, Cristianismo

e Islão.

(2) Un candide en Terre sainte, Gallimard, 2008; À Un Ami Isrélien,

avec une réponse d’Elie Barnavi, Flammarion 2010

(3) Le Monde des Religions, Julho-Agosto 2010

 



publicado por animo às 16:23
link do post | comentar | favorito

pesquisar
 
Março 2018
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
12
13
15
16
17

18
19
20
21
22
23
24

25
26
27
28
29
30
31


posts recentes

DA ARTE E DOS ESPAÇOS INE...

OBRIGADO, MANUEL

ANTONIO COLAÇO NO "VOCÊ N...

PE ANSELMO BORGES NOS ANI...

ANA SÁ LOPES NOS AAAANIMA...

ANA SÁ LOPES NOS ANIMADOS...

O OUTRO LADO DO AAANIMADO...

LISBOAS

CHEF PEDRO HONÓRIO OU AS ...

BALANÇO FINAL . JOAQUIM L...

REGRESSARAM OS AAANIMADOS...

IN MEMORIAM ANTÓNIO ALMEI...

PE ANSELMO BORGES NÃO TE...

MINISTRO CAPOULAS SANTOS ...

WEBANGELHO SEGUNDO ANSELM...

CARDIGOS, AS CEREJAS E O ...

trip - ir a mundos onde n...

´WEBANGELHO SEGUNDO ANSEL...

ANDRÉS QUEIRUGA EM PORTUG...

WEBANGELHO SEGUNDO ANSELM...

arquivos

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Outubro 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

tags

todas as tags

links









































































































































































































subscrever feeds