Segunda-feira, 31 de Janeiro de 2011
WEBANGELHO DE FREI BENTO DOMINGUES

 

In Público de ontem

 

Jesus Cristo veio desconstruir as falsas evidências humanas e religiosas que nos roubam a alegria

Bem-aventurada desconstrução

 

A crise significa coisas diferentes, segundo as

situações, preocupações e interesses das pessoas

e dos grupos. Aliás, como diz Paul Auster, “as

nossas palavras já não correspondem ao que se

passa no mundo”. Também não é fácil saber o

que se está, realmente, a passar, sobretudo, se escutarmos

os oráculos das televisões. Dizem-me que a crise do

capitalismo não passa de uma sua gripe sazonal a superar

com uma razoável ética dos negócios. Nestes assuntos,

continuo agnóstico e admira-me que o vasto mundo dos

seus curandeiros saiba tão pouco acerca da prevenção

deste género de catástrofes.

Num básico sentido antropológico, crise é o que há de

mais natural. Os animais nascem prontos para enfrentar

os desafi os que os esperam. O ser humano, pelo contrário,

leva muito tempo a formar-se no seio materno e aparece,

incrivelmente, incapaz de poder e saber fazer pela vida.

É, por natureza, um ser de relação e só em relações de

amizade poderá ser feliz.

Se os outros animais nascem equipados, o ser

humano aparece no mundo muito frágil, mas

com recursos intelectuais, afectivos e instrumentais

para desenhar e realizar o seu projecto

de vida e saber superar fragilidades e crises.

Lembro estas banalidades para dizer o seguinte:

o ser humano é responsável, não por

desejar a felicidade, mas por encontrar os caminhos

e os meios concretos, na situação concreta,

para a realizar, para ser bem-aventurado.

Na vida humana, sobretudo hoje, em que ela

depende de tantos factores, todos os equilíbrios

são precários. Como seres de conhecimento,

desejo e paixões, a instabilidade real será a companheira

da vida. Como dizia Santo Agostinho,

é impossível encontrar quem não queira ser feliz.

São mesmo as promessas de felicidade que

fazem correr as pessoas. Como, porém, a esperança vive

do prazer diferido, a tentação do prazer imediato, da vitória

antes da corrida, leva muita gente para os caminhos

das ilusões, de viver para além das possibilidades reais,

no presente. Como a publicidade atiça os desejos mais

desencontrados, transfere-se para o quotidiano a crença

no milagre do crédito, dos jogos de azar ou da droga, a

espiral da loucura. Diz a Imitação de Cristo que a vida, às

vezes, até parece “uma torrente de eternas desgraças”.

Para Hegel, “os períodos de felicidade são como espaços

vazios na crónica dos povos”.

Esta conversa é muito abstracta, porque, na realidade,

nascemos numa determinada época de uma determinada

cultura, com muitas artes de entender, realizar e

destruir a existência. Pela dificuldade em lhe dar o nome,

chamamos à nossa cultura moderna pós-moderna, pósindustrial,

digital etc. Como dizia Baudelaire, de forma

enigmática, “a modernidade é o transitório, o fugidio,

o contingente, a metade da arte, cuja outra metade é o

eterno e o imutável”.

 

2.Diante de tudo isso, nunca acabo de me espantar

com a sabedoria inscrita na estrutura

do ritual do Baptismo. Tudo começa por uma

iluminação da inteligência, do imaginário

religioso e mundano, povoados por falsas

evidências, pelos labirintos do desejo, por modos de

vida reconhecidos como prisões que importa desconstruir.

Esse momento é o ponto de chegada de uma crise

sobre o sentido da vida e o pressentimento de que é

possível mudar. Não se trata de um processo abstracto:

há um “mundo diabólico” que nos prende e ao qual é

preciso dizer não e um mundo da verdadeira vida a que

é preciso dizer sim; exorcizar o mal e aderir, de todo o

coração, ao Evangelho de Jesus Cristo, como alma da

própria alma. O Baptismo é a celebração dessa realidade,

na água e no Espírito, fonte de uma nova criatura,

cuja felicidade será a procura da felicidade dos outros,

coração da verdadeira Igreja.

 

3.A celebração do Baptismo não é uma garantia

de fidelidade. O cristão continua tentado a

renegar o que abraçou e a precisar de conversão

permanente. Este domingo é dedicado,

precisamente, a retomar a desconstrução das

falsas evidências acerca dos caminhos da felicidade, à

descoberta e à construção de uma vida paradoxalmente

feliz, sem publicidade enganosa. É o domingo das bem-aventuranças

(Mt 5, 1-12).

Talvez nenhuma composição evangélica seja tão conhecida

nem tão estudada como essa. Todas e cada uma

das suas expressões foram examinadas em pormenor e

postos em relevo todos os seus antecedentes no Antigo

Testamento. Como diz o grande especialista Florentino

Garcia Martínez (1), até agora não se conhecia nenhum

texto judaico que proporcionasse um paralelo literário

realmente próximo das bem-aventuranças de S. Mateus. O

texto evangélico era, por isso, encarado como a conclusão

de um longo processo de evolução literária. Acontece,

porém, que na Cova 4 dos manuscritos de Qumran

um fragmento, recentemente publicado, com uma forma

literária idêntica, embora não quanto ao conteúdo. Isto

mostra que circulava um modelo literário, cujo pano de

fundo judaico servia para várias composições. Esperou-se,

muitas vezes em vão, encontrar, em Qumran, a origem

dos textos do Novo Testamento.

Este exemplo, como outros, serve, porém, para mostrar

o terreno concreto, no qual o cristianismo tem as suas

raízes e como Jesus Cristo é o seu melhor fruto, aquele

que veio desconstruir as falsas evidências humanas e

religiosas que nos roubam a alegria.

(1) Los Hombres de Qumrán, Trotta, 1997.



publicado por animo às 01:59
link do post | comentar | favorito

pesquisar
 
Março 2018
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
12
13
15
16
17

18
19
20
21
22
23
24

25
26
27
28
29
30
31


posts recentes

DA ARTE E DOS ESPAÇOS INE...

OBRIGADO, MANUEL

ANTONIO COLAÇO NO "VOCÊ N...

PE ANSELMO BORGES NOS ANI...

ANA SÁ LOPES NOS AAAANIMA...

ANA SÁ LOPES NOS ANIMADOS...

O OUTRO LADO DO AAANIMADO...

LISBOAS

CHEF PEDRO HONÓRIO OU AS ...

BALANÇO FINAL . JOAQUIM L...

REGRESSARAM OS AAANIMADOS...

IN MEMORIAM ANTÓNIO ALMEI...

PE ANSELMO BORGES NÃO TE...

MINISTRO CAPOULAS SANTOS ...

WEBANGELHO SEGUNDO ANSELM...

CARDIGOS, AS CEREJAS E O ...

trip - ir a mundos onde n...

´WEBANGELHO SEGUNDO ANSEL...

ANDRÉS QUEIRUGA EM PORTUG...

WEBANGELHO SEGUNDO ANSELM...

arquivos

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Outubro 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

tags

todas as tags

links









































































































































































































subscrever feeds