Olá Colaço:
o bom filho a casa torna; por isso, aqui volto ao formato que conheces.
Parece que desta vez há uma hipótese disto vir a ser publicado em formato de livro. Estou à espera. No entretanto, ir-te-ei enviando uns textos que, se os achares adequados, poderás inserir no blogue.
Depois diz alguma coisa.
Um abraço do
Rogério Carvalho
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NR
De facto, o Rogério, ilustre arqueólogo e meu antigo colega de História, dos saudosos tempos da Faculdade de Letras de Lisboa, hoje, por terras de Castelo Branco, tem destas agradáveis hibernações.
O que nos vale é que quando regressa, para nosso consolo literário, nunca vem de mãos a abanar.
Divirtam-se com esta encantadora e bem esgalhada história!
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Ah!E já sabem, A FALA DAS GAVETAS, foi e continua a ser uma porta aberta para quem se decide, finalmente, a revelar o que andou a escrever para as gavetas.Que raio, queremos literatura viva, arejada, sem cheirar ao mofo dos dias.
Venham de lá esas colaborações!
Rogério, podemos ter uma foto tua, caramba?!
Obrigado por este...fresquinho reaparecimento.
antónio colaço
O PINGUIM
Mariana queria um pinguim. Era um desejo muito seu, um anseio, uma quase necessidade. Tinha-os visto nos programas televisivos sobre a vida selvagem, a vida nos pólos e quejandos, e tinha-se enamorado daqueles seres sisudos, verticais, trajando sempre a eterna labita aristocrática. Apaixonara-se pela bizarria das suas figuras impares, em definitivo.
Mais tarde, tinha-os observado com redobrado interesse e atenção, no oceanário de Lisboa. Tinha seguido, deslumbrada, as suas evoluções acrobáticas sob as águas verdes do tanque transparente, e tinha-se rendido à evidência: o que ela queria mesmo, a sério, era um pinguim.
De início, os pais acharam divertida, se não mesmo original a cisma da criança. Familiares e amigos, parentes próximos e afastados, no Natal, na Páscoa e no dia do seu aniversário, submergiram a Mariana com pinguins. Pinguins em miniatura, pinguins em tamanho natural, pinguins de peluche e de plástico e mais livros e filmes sobre pinguins. Havia pinguins por toda a casa, espalhados ao acaso, mas nenhum lhe satisfazia o desejo: o que ela continuava a querer era um animal de verdade, a sério, feito de carne e de osso. Só não sabia se de penas, porque achava aquela vestimenta uma coisa mais de alfaiataria ou de pronto-a-vestir, do que propriamente um mero exercício da natureza.
Não julgava a natureza capaz de tanta imaginação e originalidade, mas isso era apenas uma questão transversal; a essencial prendia-se com a expectativa do dia sonhado, em que pudesse abraçar o seu pinguim, calçudo e verdadeiro, para fazer dele o companheiro das brincadeiras e o parceiro de carteira na escola que frequentava.
Via-se a entrar pelo portão grande, de ferro pintado em tons de castanho, de mãos dadas com o amigo pinguim que, solene, encasacado, distinto e protector, se sentaria ao seu lado, olhando com atenção para a professora, e com desdém para os condiscípulos.
Depois da fase dos brinquedos, os adultos passaram a olhar com alguma apreensão o facto de Mariana não afrouxar. Passaram então a chamá-la à realidade: que uma ave daquelas não era bicho para ter em casa, que precisava da liberdade que só os pólos podiam conferir, e que não sobrevivia senão em temperaturas muito baixas. E como último recurso, sublinhavam: “olha que eles cheiram muito mal. Cheiram a peixe e a água salgada, porque só comem peixe e só tomam banho no mar”. Debalde. Não havia argumento que a demovesse. Estava de pedra e cal.
“Pinguim é pinguim, pensava, como é possível chamar-lhe ave? Isso é confundi-los com os perus ou os pardais de telhado. Os adultos têm cada argumento…”
Mas no mundo dos adultos nem tudo era disparatado. Se eram, de facto, aves, como todos afirmavam, então a solução do seu problema passava pelo ovo. Ovo e ave são substantivos inseparáveis. Ovo é começo, é origem; ave é produto, é resultado. O que havia a fazer era começar pelo início. Estava construído o encadeamento lógico.
“De novo apenas o ovo”, dizia-lhe a avó, a mesma que a ensinara a estar atenta às coisas mais insignificantes da vida, e que o tempo lhe revelara serem as essenciais.
“O que é um ovo?”, perguntava-lhe Mariana. Só mais tarde soube que é o cadinho do mistério, o prenúncio da vida, porque carrega consigo a magia da criação. É a origem e o princípio, o portador do todo primordial. E acima de tudo, pela sua forma perfeita, é o convite ao sonho e à imaginação. Mas tudo isso só compreendeu mais tarde.
Naquela altura, como acontecia com todas as crianças, Mariana fascinava-se com o milagre que se operava na capoeira daquela avó sábia. Quando a galinha garnizé ficava choca, uma galinha em miniatura de penas negras, salpicada de branco na zona do pescoço, a avó aconchegava no ninho feito de feno, sete ou nove ovos das galinhas poedeiras, grandes, vermelhuscas e de pescoço pelado. Depois ia ao calendário que estava pendurado de um prego na parede fuliginosa da cozinha escura, e assinalava com um círculo a data em que a ninhada iria sair. Para tanto bastava-lhe somar à data mais vinte e um dias. Três semanas exactas.
Aquela aritmética era infalível. No final desse tempo, sete ou nove pintos recém-saídos da casca, iriam saltitar em volta da galinha em correrias patuscas, para depois se refugiarem, pipilantes, sob a asa acolhedora que os aquecia e protegia.
Mariana era uma menina observadora. Passava longos tempos sentada a observar o mundo complexo da capoeira: o galo velho, armado de curvos esporões nas patas escamudas, que se fazia obedecer sem contestações; as galinhas tontas, a correrem atrás umas das outras, disputando entre si, com algazarra, uma minhoca acabada de desenterrar; e os pintos, aquelas bolinhas penugentas que lhe enchiam o coração de ternura, e que só não os apertava contra o peito porque sabia que a fúria da galinha era terrível.
E foi numa dessas tardes passadas na quinta que se lhe fez luz sobre a forma de resolver o seu intrincado problema. Afinal era fácil, e a resposta tinha estado sempre ao seu alcance, só que ela não se tinha apercebido. Se aquelas aves polares nasciam dos ovos, então a questão estava resolvida.
Discretamente, numa altura em que ninguém lhe prestava atenção, foi ao cesto onde as galinhas costumavam pôr os ovos, e recolheu um, o que lhe pareceu maior e mais redondo. Escondeu-o debaixo da camisola e depois foi até à cozinha; no calendário da parede fez com um lápis quase sem bico, um círculo negro no algarismo correspondente ao vigésimo primeiro dia subsequente, tal como tinha visto a avó fazer. Depois, agarrou numa cadeira, arrastou-a para junto do frigorífico, abriu o congelador, e escondeu o ovo no canto mais afastado da porta.
Agora só lhe restava aguardar que os próximos vinte e um dias passassem depressa, para poder, finalmente, ter o seu pinguim.
22/10/2010
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