Sexta-feira, 4 de Novembro de 2011
A FALA DAS GAVETAS . O SENHOR HENRIQUES escreve Rogério Carvalho

            O SENHOR HENRIQUES

 

Usava uns passinhos comedidos, tipo pé-à-frente-pé-atrás, ensaiados em adolescências de seminário

    (corredores silenciosos, crispados pelos sussurros e pelas suspeitas),

e continuados pela vida fora em azáfamas de retiros espirituais, onde as desinteressantes palestras alternavam com a sombra fresca dos claustros devolutos.

Uns passinhos de passarinho, cauteloso e solícito ao mesmo tempo, se é que ao mesmo  tempo ambas as atitudes conseguiam coexistir. Quando se aproximava das pessoas, equilibrando aqueles passinhos saltitantes e discretos de bailarina valsando na passerelle, inclinava a cabeça a três-quartos, armava um sorriso formal

    (desses que são apenas uma crispação cínica dos cantos da boca e que deixam     perceber a dentadura, ao mesmo tempo que os olhos permanecem frios e     inexpressivos),

e só depois de composta a máscara é que cumprimentava, andando sempre em frente, sem jamais fazer menção de se deter, a cabeça a rodar no eixo do pescoço na direcção exacta da pessoa cumprimentada, a cabeça rodando cada vez mais à medida que se aproximava, que se cruzava com o outro, que o ia deixando para trás, mantendo por longo tempo, dez ou doze passinhos para diante, o mesmo sorriso crispado que levava o seu tempo a perder a eficácia. Só depois compunha o rosto fechado, a expressão neutra, anónima e quase hostil.

Ficavam aqueles passinhos miúdos para falarem de si, com propriedade e eloquência.

Nessas andanças de andarilho passeou a vida inteira, ora numa, ora noutra das margens de todas as ruas da cidade, que calcorreava a esmo. Fê-lo nos trajectos habituais, aqueles em que nada se retem porque tudo é igual, repetido e familiar, desde o volume dos prédios aos desenhos lavrados em cada porta, em cada janela, em cada empena, e onde tudo estava visto sem nunca ter sido realmente visto, porque as formas se reconheciam de uma maneira implícita, sem o recurso à observação e ao deslumbramento. E essas coisas tanto podiam ser a decoração de uma montra vista todos os dias, como um rosto habitual habitando uma eterna janela com cortinas, com o vento agitando essas cortinas.

Mas também o fez nos trajectos cautelosos, pelas ruas esconsas dos bairros marginais, pelas travessas estreitas e pelos becos escuros. Porque os receava e os temia, mas porque a curiosidade era mais forte. Embrenhou-se por escadinhas íngremes com corrimão de ferro ao meio, onde os homens em camisolas de alças desbotadas jogava, às cartas, e as mulheres, regateiras, prostitutas, maltrapilhas, se entretinham em eternas discussões de vizinhas agastadas.

A tudo se habituara o senhor Henriques, homem de vagares e de segredos

     (daqueles que existem mais para mascarar o vazio interior do que para esconder o     que quer que seja),

sujeito anónimo e sem rosto, senhor de uma vida onde nada existia que fosse digno de nota. Havia quem dissesse que ele tinha morrido à nascença, sem que ninguém desse por isso. Que crescera devagar, como todas as crianças da sua idade, mas que crescera dentro de um corpo defunto, de um cadáver insepulto que, sem a putrefacção da carne, se movia mais por obediência às forças mecânicas dos ossos e dos músculos, do que aos ditames da alma.

E todavia, numa tarde de chuva miudinha, daquela que se instala nos ossos e os corrói como se fosse ácido, aconteceu-lhe o impensável: deu por si a flutuar. Ao princípio foi mais uma sensação imperceptível, uma leveza do corpo e do espírito que se materializava apenas a uns escassos milímetros acima do passeio. Depois de refeito do susto

    (ou da surpresa, que é quase a mesma coisa),

percebeu que tinha atingido o limiar da bem-aventurança. Movia-se agora sem um som, ligeiramente acima de toda a gente

    (o que lhe dava um prazer enorme, porque sempre transportara uma figura meã, a par     de um desmedido complexo de inferioridade),

como uma folha seca empurrada pelo vento. Ou talvez mais como uma pena de ave, ligeiramente desequilibrada, subindo e descendo em movimentos longos, ondulantes e ritmados.

Os passinhos discretos deram então lugar ao deslizar silencioso de um patinador, riscando sem ruido a superfície do gelo. O senhor Henriques exultava. Aventurou-se a outros destinos, a outras paragens. Por onde andava

    (em boa verdade não andava, flutuava),

deixava um rasto de admiração, um sussurro de espantos, um murmúrio de deslumbramentos.

Com o tempo, julgou-se capaz de uma maior elevação: a curta distância que o separava do solo parecia-lhe cada vez mais insignificante e banal: queria voar. Ambicionava o voo tranquilo das grandes aves que planam, sem esforço, nas tardes nítidas dos verões. Aquilo que possuía nem chegava a um salto de pardal, era apenas um truque de magia. Ou mais provavelmente, uma praga rogada por uma alma vagabunda. Ou uma maldição. Ou talvez, e apenas, o mau-olhado dos invejosos.

Mas as tentativas para se elevar nos céus, frustraram-se. Apesar dos ensaios cada vez mais temerários, não conseguiu ultrapassar aquela espessura mínima de vazio que se estabelecera entre si e o mundo que o envolvia. Obrigou-se, por isso, a uma auto-aprendizagem rigorosa, pois jamais poderia beneficiar das experiências alheias, prisioneiro que estava da especificidade do seu caso. Assim, para se sentar

    (mesmo à mesa solitária das suas refeições habituais),

tinha que se prender à cadeira com uma pequena âncora de prata que mandara fazer expressamente para o efeito, e que trazia presa a uma corrente antiga e que ostentava, com orgulho, por sobre o colete do eterno fato de alpaca cinzenta.

 Envolto na sua almofada isoladora sentia-se, por fim

    (e há quanto tempo o desejava),

a salvo de qualquer contacto com os seus semelhantes: os poucos parentes, os raros amigos, e os escassos conhecidos.

Ao senhor Henriques, com o estofo protector que o distinguia das restantes criaturas, estava-lhe aberto o caminho para a concretização da sua secreta vocação: podia, por fim, dedicar-se a emprestar dinheiro a juros.

 

Rogério Carvalho

 

PS

1.Para quando uma foto tua, Rogério?

2.As tuas histórias começam a desafiar-me para tentar uma ilustração...Até lá, mesmo que possa ser redutora, não encontrei melhor do que esta imagem do Diácomo Remédios - uma das mais bem conseguidas personagens de Herman no seu melhor tempo...

ac



publicado por animo às 15:26
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