Terça-feira, 15 de Novembro de 2011
A FALA DAS GAVETAS . A METAMORFOSE escreve Rogério Carvalho

                       HISTÓRIA PARVA  -  A METAMORFOSE

Esta madrugada, ao acordar, descobri com surpresa e alvoroço que me tinha transformado num ser esquisito, estranho, muito estranho mesmo. Não da mesma forma que tinha afectado Gregor Samsa, o misterioso alter-ego de Franz Kafka, mas de uma outra forma, sem qualquer ponto de contacto com o facto narrado pelo escritor de Praga.

Gregor Samsa tinha-se transformado numa barata monstruosa, num insecto abominável, e permanecia aprisionado num esqueleto quitinoso que lhe dificultava os movimentos, mesmo os mais imperceptíveis.

Comigo, a situação foi diferente. Abri os olhos e reparei que a anormalidade começava pelo facto de dispor de um conjunto de membros, quase todos do mesmo tamanho, mas não exactamente do mesmo tamanho, todos cilíndricos, embora o calibre não fosse regular em todos eles: tendiam a afunilar-se no sentido das extremidades, as quais por sua vez, terminavam numa espécie de tentáculos curtos, cinco em cada uma delas. Por instantes, julguei-me um polvo, um enorme cefalópode abandonado entre os lençóis, mas cedo percebi que, quanto muito, só poderia ser metade de um polvo, pois só evidenciava quatro membros.

Como me chamará qualquer naturalista que venha (e virá inevitavelmente) a ser chamado a debruçar-se sobre o meu estranho caso? Octopus não pode ser! Talvez quatoropus se adeqúe com mais exactidão. Quatoropus é um nome que aprovo desde já, embora julgue que o provável naturalista não deixará de ficar confundido com os restantes tentáculos que rematam a extremidade dos membros. Bom, ele que se desembarace da situação, que a mim, neste preciso momento, já me parece demasiado confusa e melindrosa.

À medida que ia despertando, apercebi-me que esses membros estavam soldados a um tronco central, também ele cilíndrico, e também esse cilindro estava repleto de reentrâncias e protuberâncias estranhas. Os quatro membros não estavam implantados ao mesmo nível, tal como os braços de um polvo, mas emergiam dois a dois, aos pares, conferindo ao tronco central um grosseiro eixo de simetria. Ao olhar com atenção, reparei que tal simetria era apenas aparente, porquanto um dos lados evidenciava um ligeiro desenvolvimento em relação ao lado oposto. Muito ligeiro, é certo, mas tal não deixará de ser objecto de especial atenção por parte do olhar treinado do naturalista, cujo interesse pelo assunto será, certamente, inevitável.

Por fim, no preciso momento em que me apercebia de quão estranha era a situação, reparei que acoplado a esse tronco em forma de cilindro, amarrotado, se encontrava um sólido esferóide bastante desproporcionado em relação aos restantes elementos inventariados, pois a suas dimensões eram insignificantes, considerando a escala dos mesmos. A tal esfera não se implantava directamente no tronco, antes se apresentava pousada sobre um plinto baixo, facto que lhe conferia uma relativa autonomia em relação aos seus próprios movimentos. Sem ter uma total liberdade, conseguia rodar no sentido horizontal, uns quantos graus para a esquerda do eixo de simetria referido, e outros tantos, exactamente os mesmos, no sentido oposto. Os movimentos verticais eram igualmente complexos e não diferiam, no essencial, do atrás descrito.

Não me foi possível medir tais amplitudes, mas estou certo que os académicos o farão, pois é por demais conhecida a sua obsessão pelo rigor e pela medida. Dizem que o fazem em nome da Ciência, e eu acredito.

Este esferóide, tal como os restantes elementos, apresenta uma forma grosseira, pois nada corresponde às formas geométricas puras. Assemelham-se, correspondem-se, como cópias distorcidas dos modelos, mas sem conseguir reproduzir a perfeição do original. Para além do que se apresenta esburacado, pois contei-lhe sete orifícios, seis dos quais emparelhados dois a dois. O último, o solitário, que é sem dúvida o maior, está continuamente a agitar-se, produzindo movimentos irregulares, tal como se de uma anémona-do-mar se tratasse.

 

Desse orifício emergem sons, numa verdadeira cacofonia sonora. Não se assemelham ao melodioso canto das aves, nem ao balido das ovelhas ou ao latido dos cães, que são ritmados e repetitivos. Os sons ali produzidos apresentam um registo que oscila entre graves profundos e agudos estrídulos, combinados entre si produzindo sequências sonoras desagradáveis, quase agressivas e, no seu conjunto, absolutamente incompreensíveis.

A minha primeira impressão, ao aperceber-me do ser disforme em que me transformara, foi a de que ainda estava mergulhado no sono, e que tudo aquilo não passava de mais uma construção dos sonhos que, por vezes, me são dados a sonhar. É comum, nesses abismos da realidade, dar comigo a voar. Voo com incrível facilidade por sobre as casas e as árvores, sobre as cidades e as florestas, sobre os animais dos prados e a orla das praias. Parece ser de realçar que jamais tive um sonho em que voasse por sobre o mar, talvez porque a minha fobia em relação à água me iniba de sobrevoar as ondas oceânicas. Se calhar até gostava de ver os peixes voadores, o dorso húmido dos grandes cetáceos e as afiadas barbatanas dorsais das orcas e dos tubarões. Mas até hoje, os meus voos nocturnos tiveram sempre uma paisagem terrestre como fundo.

Mas não é só de voos que os meus sonhos se vestem. Neles consigo ser o que nunca fui: o soldado destemido, o cavaleiro garboso, o sedutor irresistível. Outras vezes sou o contrário de tudo isto, e transformo-me numa espécie de amálgama angustiada feita de sentimentos de culpa e de personalidades frustradas.      

De início não acreditei que tivesse atingido o estado de vigília, que tivesse abandonado a concha negra do sono e que me encontrasse, sem remissão, no mundo real. Não já no reino da fantasia, mas na face crua da vida.

Ao aperceber-me do meu estado, ao tomar consciência do ser absurdo em que me tinha transformado, compreendi que o meu EU sofrera uma profunda mutação. Aquele invólucro bizarro que passara a embrulhar-me o EGO, era-me tão estranho quanto repugnante. E essa repulsa não se confinava apenas aos aspectos morfológicos; a textura que todo aquele corpo tornava ainda mais assustadora a trágica situação em que me encontrava. De facto, o invólucro daquelas formas assustadoras vinha acentuar ainda mais o horror que me paralisava: revestido por uma pele clara, nem muito branca, nem muito escura, apresentava manchas irregulares de uma espécie de pelagem acinzentada. Em certos pontos não existia um único pelo, mas em contrapartida, outras zonas pareciam feitas para os concentrar. Por exemplo: metade da esfera, que será mais exacto ser designada por poliedro irregular, estava coberta por esta pelagem hirsuta, enquanto a parte restante se apresentava nua. A zona revestida apresentava pelagem longa, contrastando de forma clara com os pelos dispersos pelos quatro membros e pelo tronco, que eram mais curtos e muito menos densos.

Ao contrário da quitina de Gregor Samsa , aquele revestimento era mole e, em certos pontos, não de todo desagradável ao tacto, devido à sua relativa macieza. Sobretudo nas zonas mais despidas de pilosidades.

Após realizado o inventário de todos os elementos bizarros que o meu novo corpo evidenciava, tentei abandonar a cama, que estava num estado caótico devido à violência das transformações sofridas. Com cautela, aproximei aquele ser disforme da borda da cama, procurando perceber o funcionamento dos membros, a forma como se articulavam com o tronco, e se existia alguma lógica no seu funcionamento. Como cada um deles  se subdividia em dois segmentos com movimentos distintos, cedo compreendi que os mais longos e mais robustos deveriam ser os que se destinavam a suportar o peso do estranho conjunto que me tinha sido dado a habitar.

Por via das dúvidas, comecei a mover-me usando os quatro membros, arrastando o pesado invólucro pelo chão alcatifado do quarto, mas tal forma de locomoção revelou-se incómoda e pouco eficiente. Aos poucos deduzi que deveria adoptar uma postura vertical, o que, no início não se revelou ser fácil de concretizar; mas depois, à medida que ia ensaiando os primeiros passos, ia percebendo melhor a mecânica da coisa.

Neste preparo, hesitante e inseguro, abandonei o quarto e dirigi-me à cozinha, onde sabia que iria encontrar a minha mulher e a nossa filha. O que não sabia era qual a reacção que teriam quando reparassem no ser monstruoso em que me tinha transformado. Certamente que se iriam pôr aos gritos, num desmedido sobressalto provocado pelo choque de não reconhecerem naquela criatura medonho, a pessoa do marido e do pai.

Foi com imensa apreensão que me aproximei da mesa, sempre receando o pior. Qualquer reacção histérica não seria de espantar face ao inusitado da situação, sobretudo por parte da mais nova, a mais impressionável das duas. Para meu espanto, olharam-me sem qualquer sinal de estranheza, como se tudo estivesse normal, como se aquele invólucro tivesse alguma coisa a ver comigo. Perguntaram-me se tinha dormido bem, apenas isso: dormiste bem? E mais nada.

Puxei uma cadeira e sentei-me pesadamente, como se pousasse sobre o tampo almofadado um peso insuportável. Não sei se o cansaço se devia ao peso do fardo que me servia de habitáculo, ou apenas ao facto de ter criado uma expectativa demasiado elevada e que, misteriosamente, não desencadeou os resultados esperados.

Sobre a mesa, frente ao lugar que julguei ser o meu, estavam pousados os talheres e as louças, a par dos frascos de geleia e de uma cesta de pão em fatias. O aroma forte das torradas despertou-me o apetite. Como se tudo estivesse normal, espalhei a manteiga no pão e aguardei pelo café.

No íntimo sabia que ambas eram distraídas, mas nunca as supus tanto.

Rogério Carvalho             



publicado por animo às 18:00
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