Segunda-feira, 19 de Dezembro de 2011
A FALA DAS GAVETAS . escreve Rogério Carvalho

 

 

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Nevoeiro. Cerração, chama-lhe os homens do mar. A cortina húmida das nuvens baixas abateu-se sobre os campos e deixou-os sem horizontes. Agora apenas existe o que está perto, porque os longes apagaram-se, engolidos por esta cinza fria e pegajosa.

Surgindo do nada, destaca-se a figura curvada de um velho agarrado à sua bengala, feita de um pau de marmeleiro. Encosta-se ao vulto das paredes velhas, e porque está trôpego, parece não ter pressa. O pauzinho que lhe serve de amparo, com a ponta ferrada, arranca um ruído seco e metálico das pedras escuras da calçada irregular.

Reconheço-o: é o senhor Francisco, marinheiro reformado, regressado às serras para encalhar a nau da vida que lhe resta. Quando chega ao pé de mim, apruma-se com esforço, desdobrando as artroses da coluna como quem abre uma boa navalha toledana de quatro estalos, e filosofa: vai-se acordando vivo! Tem os olhos aguados e sem cor de quem somou os anos e seus e os seus tormentos, as tormentas do mar e da terra, que não revela.

Correu mundo na Sagres; fez a guerra das bolanhas da Guiné a bordo de uma lancha, patrulhando regolfos e canais, mas nunca fala das suas memórias marítimas. Fala-me do burro (ainda o conheci, manso, velho, dorso selado em demasia, cascos desferrados e olhos pensativos), das galinhas que já não tem porque a saúde não lho permite, da horta que abandonou, da azeitona que ficou nas árvores, para os tordos a comerem. De tudo isto fala, com saudade, com nostalgia, mas do mar e das suas fainas, nada. Nem uma palavra. Como se todos aqueles anos não tivessem existido. Tempestades e bonanças, portos de mar e linhas de costa, passagens pelos trópicos e pelo equador, nada disso parece ter deixado rastos.

Vai-se acordando vivo!, e sorri, não sei se agradecido pela vida, ou se cansado do padecimento que lhe tolhe os movimentos. Conversamos; dois dedos de conversa sobre coisa nenhuma, sobre inocentes lugares-comuns. Depois despede-se e, sem pressas que o corpo não permite, some-se no nevoeiro, que é a face visível do vazio.

Toda a vida foi camponês, e mesmo sobre as ondas, sobre a imensidão desértica do mar, lastimava as courelas que deixara ao abandono, e sonhava com a prosperidade camponesa feita de tulhas cheias, palheiros a abarrotar, e capoeiras e currais povoados até mais não. Mas a vida, que é um novelo de voltas e mais voltas, fê-lo grumete de veleiros e, mais tarde, marinheiro da armada. Mas por dentro permanecia fiel ao terrunho, e na solidão das viagens oceânicas, a nostalgia tinha a forma dos montes familiares e o perfume das estevas em flor.

O nevoeiro adensa-se e já nada se move no curto horizonte a que o olhar se permite. As formas tornam-se fluidas e os volumes imprecisos, e o silêncio pesa.

 

Aqui não se escutam os gritos das gaivotas ou o apito dos barcos nas suas rotas cegas. Apenas o silêncio, que torna mais distante os descampados.

Foram estas as manhãs sonhadas para acolherem o desejado. Mas a sua carne á feita de brumas e da bruma se sustenta, para que o mito se cumpra. A mim, materialista inveterado, em vez de um dom Sebastião, saiu-me o senhor Francisco, anónimo e prosaico. O nevoeiro o trouxe e o levou, porque assim tinha que ser. Quando vier o sol, penso, vou voltar a vê-lo sentado no poial pintado de azul, a aquecer os ossos ao calor discreto da invernia. Vai dizer-me a mesma coisa, e tudo ficará como dantes. Só que de uma forma mais nítida, mais colorida.

E quando vier o sol, de certeza que não me vou lembrar de el-rei dom Sebastião.

Rogério Carvalho



publicado por animo às 00:02
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