Sexta-feira, 23 de Dezembro de 2011
A FALA DAS GAVETAS. HISTÓRIA DE NATAL escreve Rogério Carvalho

            

 

4.

Tinha feito a ceia para o Menino Jesus. Era costume lá em casa fazer, todos os anos na véspera de Natal, uma ceiazinha para o Menino, porque toda a gente sabia que Ele chegava muito tarde e muito cansado, devido a tanta correria pelos telhados de todas as casas do mundo.

Era fantástico aquele Menino, com aquela capacidade de se recordar de toda a gente e de nunca se enganar na respostas aos inúmeros pedidos que recebia de todos o lados. É certo que trazia a companhia do Pai Natal, um homem muito mais velho e, certamente, muito organizado, mas mesmo assim aquela tarefa da noite de Natal devia ser muito cansativa, mesmo para um Deus, porque mesmo um Deus pequenino também se cansa, com certeza.

Para descansar de tantos trabalhos, o Menino em determinadas casas tinha que retemperar as forças com frutos secos e guloseimas. Mas só em casas especiais, claro! Ainda bem que a casa dela era uma dessas.

Por isso, nessa noite ela preparou-lhe um tabuleiro grande, de madeira encerada, forrado com um pano muito branco de linho e de rendas antigas, retirado da arca da avó onde só se guardavam as coisas mais preciosas lá da casa. Sobre o pano imaculado dispôs pequenos pires de cores intensas e brilhantes: no amarelo, pôs os figos secos; no azul, as nozes e as amêndoas da cor do marfim; no verde colocou as passas douradas e no pires maior, todo branco com uma bordadura castanha em volta, distribuiu todos os gomos geométricos de uma grande clementina.

 

Ela gostava especialmente daquele fruto porque tinha o mesmo nome da avó, a sua querida avó Clementina, e ambas, a avó e a fruta, eram doces, perfumadas e suculentas.

Para concluir o tabuleiro para a ceia do menino Jesus, arranjou uma grande chávena de chocolate muito quente e fumegante para Ele se deleitar. Pois se Ele era menino como todos afirmavam, de certeza que gostava de chocolate.

Nessa noite dormiu pouco e mal, acordando amiúde no intervalo dos sonhos. Ora acordava, ora adormecia e, nessas alturas, parecia-lhe ouvir, vindos da sala de jantar, os sons dos risos dos adultos, o tinir dos copos, o fru-fru dos papéis prateados dos embrulhos e o roçar das fitas nas caixas de cartão. Quando finalmente a manhã chegou, levantou-se muito cedo e correu para a chaminé: no sapatinho lá estava a boneca porque tanto suspirara, no meio de tantos outros embrulhos coloridos. Era exactamente aquela; uma vez mais o Menino não se tinha enganado nem tinha trocado nada com toda aquela confusão da noite santa.

Só depois reparou no tabuleiro. Ainda bem que tinha tido todo aquele trabalho, pois nozes, figos, passas e amêndoas, tudo tinha desaparecido. Tudo, não. No fundo do pires branco debruado a castanho, estavam meia-dúzia de pequenas sementes, tudo o que restava da ceia sagrada. O Menino Jesus tinha mesmo estado ali, tinha comido a refeição que Lhe preparara com tanto cuidado e amor e, certamente como toda a gente, tinha cuspido os caroços do fruto delicioso para o fundo do recipiente.

Então pegou nas sementinhas e levou-as para o quarto. No dia seguinte, preparou um vaso com terra negra e semeou-os todos. Na Primavera rompeu um pequenino ponto verde, para rapidamente se transformar numa seta vegetal e depois, com o passar dos dias, numa folha inteira, depois duas, depois três e, por fim a planta toda.

No Outono pediu ao pai para plantar a pequena planta e ele levou-a para o canto mais abrigado e fresco da quinta. Colocou-a no chão, protegeu-a dos ventos frios do Inverno, regou-a nos verões seguintes, podou-lhe os ramos desnecessários e tratou-a com  o mesmo carinho que todas as árvores lhe mereciam.

Agora, passados tantos anos, na noite de Natal a enorme árvore fica carregada de grandes bolas cor de fogo e, todos os anos, a família se reúne debaixo dela para colher cestas dos frutos encantados.

Então, na véspera do dia sagrado, os mais pequenos da casa fazem a ceia para o Menino Jesus e enfeitam o tabuleiro com frutos secos, filhós, pinhões e, é claro, gomos descascados da árvore da quinta.

E todos lá em casa só as conhecem como as clementinas do Menino Jesus.

 

Rogério Carvalho



publicado por animo às 23:10
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