Quinta-feira, 9 de Fevereiro de 2012
A FALA DAS GAVETAS . escreve Rogério Carvalho

 

Mais um privilegiado texto de Rogério Carvalho.
Comovente.

antónio colaço

A MINHA MÃE

(no tempo em que tinha mãe)

 

vinha despedir-se pela manhã como quem cumpre um ritual. Isso era sempre em Setembro, quando as férias acabavam, quando o verão acabava e o Outono se preparava para regressar. O Outono acabado de entrar anunciava um outro ano de ausência. De ausências. Como sempre foi. Como tinha que ser.

A minha mãe

(nunca foi bem a minha mãe)

encostava o corpo cansado à empena da casa baixa que servia de paragem à carreira

(chamavam-lhe apenas A carreira)

e ficava a olhar para a curva da estrada, à espera que a camioneta chegasse depressa, que se fosse embora depressa e que tudo aquilo acabasse depressa. Olhava para a curva da estrada, olhava para mim e voltava a olhar para a curva da estrada, sem dizer nada

(nunca teve nada para me dizer)

com os olhos ausentes e desfocados de quem estava ali mas não queria estar ali, e estava ali apenas porque tinha que estar ali.

A  estrada estreita vinha do alto da serra em direcção vale, e o roncar do motor fazia-se ouvir muito antes da viatura se deixar ver, e nós

(eu e os meus padrinhos)

estávamos ali à espera, rodeados por cestas e cabazes como três náufragos rodeados de destroços.

A minha mãe segurava sempre a mão pequenina da filha mais nova

(a minha mãe tinha mais cinco filhos que eram os filhos dela de verdade)

que se escondia atrás do avental da mãe

(da mãe dela)

assustada com o aparato das despedidas.

As manhãs dos finais de Setembro eram já frescas, e a aragem trazia dos campos próximos o aroma das figueiras olorosas, perfume que eu tentava reter porque sabia que só o voltaria a respirar no ano seguinte.

A casa era baixa e pequena como uma casinha de bonecas, aconchegada ao dorso do cabeço como se fosse uma parte integrante da própria terra, e tinha sobre a porta um painel de azulejos publicitando os nitratos do Chile com letras negras sobre um fundo ocre, e o sol nascente arrancava reflexos multicores na sua superfície vidrada. Aquele brilho intenso fazia-me desejar

(esse desejo nunca se realizava)

que o dia fosse outra coisa qualquer diferente daquela que eu sabia que ia ser.

Lá dentro ficava a loja da Juliana, uma sala escura que terminava num balcão corrido, atrás do qual a taberneira, de olhos míopes, limpava continuamente, com gestos nervosos e de forma automática, a folha de zinco que servia de forro ao tampo.

O cheiro das figueiras, os reflexos do sol no espelho vítreo dos azulejos e a escuridão que se escapava pela porta aberta da loja, eram tudo coisas que me preparava para deixar para trás, já não me lembro se com pesar ou apenas com nostalgia.

As mãos da minha mãe

( já não me recordo das mãos da minha mãe)

largavam por momentos a mão da filha e compunham o lenço que teimava em escorregar na direcção dos ombros, deixando à vista os seus cabelos grisalhos enrolados numa trança que, de ano para ano, se tornava menos volumosa. O lenço era invariavelmente o mesmo, ano após ano, igual à chegada, igual à partida, um quadrado de tecido castanho com ramagens de rosas púrpuras sobre folhas verdes, e naquelas manhãs silenciosas

(há sempre silêncios nas despedidas)

as mãos, o lenço, o cabelo a embranquecer, pareciam fazer parte de uma cerimónia sempre repetida, tão inevitável como a hora da partida que se aproximava.

Então, no instante em que o autocarro chegava à paragem, uma peça antediluviana pintada com riscas verdes e brancas, a minha mãe desencantava não sei de que secreta algibeira, dois pacotinhos de bolachas de baunilha embrulhadas em papel celofane com letras que não sei o que diziam, porque nesse instante os meus olhos estavam embaciados pelas lágrimas que me esforçava por conter, e passava-mos para a mão como quem oferece uma dádiva preciosa.

É para comeres no caminho, dizia-me

(era das poucas coisas que me dizia)

e eu subia os dois degraus, sentava-me num banco de napa, e ficava a olhá-la do lado de dentro de uma janela que não se abria, com os dois pacotes de bolachas de baunilha nas mãos suadas

(nesse tempo as minhas mãos também eram pequeninas)

e rezava, como uma oração, a oração dos estóicos: um homem não chora, um homem não chora, um homem não chora. E não chorava.

Quem ficava a chorar era a minha mãe, que então erguia a mão direita

(a esquerda apertava ainda a mão da filha)

mostrava-me a sua palma branca rematada por cinco dedos muito esticados, e agitava-a, agigantando-a para o alto, como quem sacode um pano ao vento.

A mão da minha mãe

(já só consigo vislumbrar-lhe a sombra)

era a última coisa que eu deixava para trás, antes da camioneta atravessar a recta dos ciprestes que se erguiam, hirtos, para o céu, como um lamento da terra.

Rogério Carvalho



publicado por animo às 19:02
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