Segunda-feira, 30 de Março de 2009
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A África teve pouca sorte
29/03/2009    Frei Bento Domingues O.P.


 
Confesso que me desgostam as conversas que reduzem o continente africano a oportunidade de bons negócios


1. Repete-se que África é o continente mais pobre da terra. Com a crise mundial - como escreveu, em El País, J. Santiso - arrisca-se a voltar a ser o mais esquecido, a desaparecer das agendas dos países ricos, às quais mal tinha chegado. Estava a tomar-se, sobretudo desde o ano 2000, um continente atractivo, especialmente para as novas potências emergentes da Ásia, do Próximo Oriente e da América Latina. Hoje, operam em África mais de 800 empresas chinesas em diversos sectores. Em 2008, o comércio entre a China e a África superou os cem mil milhões de dólares. Para o bem da África, seria importante que este interesse não se apagasse em 2009.
O interesse da China radica, fundamentalmente, nos tesouros dos solos africanos. Este apetite internacional estimulou, por seu lado, o crescimento do continente. Segundo o African Economic Outlook (AEO), publicado pela OCDE, o continente cresceu, cinco anos seguidos, a "ritmos asiáticos", com uma média de mais de 5,5 por cento. Isto não se passou apenas com os países exportadores de matérias-primas. Em 2007, dos 35 países analisados no AEO, um total de 31 cresceram a um ritmo superior a 5 por cento.
O despertar do interesse da China por África abriu o apetite de outros investidores emergentes. Em 2005, pela primeira vez, o investimento estrangeiro directo recebido pelo continente (35 mil milhões de dólares) superou a ajuda oficial ao desenvolvimento bilateral dos países da OCDE. Em 2007 e 2008, os investimentos alcançaram 53 mil milhões de dólares.
No mundo das chamadas "economias emergentes", a China não é, todavia, o único novo investidor. Em 2006, pela primeira vez, as fusões e aquisições realizadas na região foram lideradas pelas empresas da Ásia e do Próximo Oriente. Em 2007-2008, o comércio bilateral entre a Índia e a África superou os 30 mil milhões de dólares, quando era, apenas, de mil milhões em 1991. Em 2008, pela primeira vez na história, realizou-se uma cimeira Índia-África. Do lado da América Latina, os grupos brasileiros iniciaram importantes investimentos.
Confesso que me desgostam profundamente as conversas que reduzem a África a uma oportunidade de bons negócios, mesmo quando apresentados como mutuamente vantajosos. Isto no momento em que as jogadas financeiras dos grandes negócios deixaram o mundo na aflição económica actual.

2. "Quando começou esta crise, os países em desenvolvimento, especialmente os africanos, eram meras testemunhas inocentes. Agora, só lhes resta sofrer as suas duras consequências." Estas palavras de Ngozi Okonj-Iwela, directora gerente do Banco Mundial e ex-ministra da Economia da Nigéria, ilustram a crescente preocupação pelo impacto devastador que uma crise nascida nos países ricos está a começar a ter no mundo em desenvolvimento, sobretudo na África subsariana.
Uma vez mais, os africanos são vítimas de um desastre causado por outros. Não são responsáveis pela falta de controlo nos mercados mundiais, nem pela voracidade dos bancos que desencadearam o crash financeiro, mas, como diz Velázquez-Gaztelu, podem acabar por ser os que mais sofrem as suas consequências.
No século XVI, devido ao comércio transatlântico de escravos, o dominicano Fray Bartolomé de Las Casas escreveu o violento opúsculo Brevíssima relação da destruição de África. Na Conferência de Berlim (1884-1885), consumou-se a divisão colonial da África sem ter em conta as fronteiras dos povos. Na Conferência afro-asiática de Bandung (1955), anuncia-se o futuro pós-colonial da África. Revelou-se, no entanto, um tempo doloroso em guerras, fomes e doenças.

3.O Papa foi aos Camarões e a Angola. Os meios de comunicação social concentraram esta viagem num falatório sobre preservativos que só pode servir os grandes negócios desta indústria e as audiências daqueles. Isto levanta uma pergunta: quem andará, dentro ou fora do Vaticano, a sabotar o magistério de Bento XVI que devia testemunhar a verdadeira alma do mundo - que estremece nos gestos de infinita compaixão de Jesus Cristo - e resvala para temas secundários que acabam por exigir fastidiosas explicações e interpretações de interpretações? Não se pode continuar a dar a ideia de que o catolicismo ainda não se libertou de obsessões sexuais superadas no Concílio Vaticano II. Se o Papa desejava inculcar a mensagem de uma vida sexual sã e responsável, não podia entregar, à comunicação social, o tema do preservativo. Teria sido melhor aproveitar a ocasião para se desviar dos caminhos da Humanae Vitae (1968) que vão dar sempre à multiplicação de equívocos.
Havia quem esperasse que esta viagem também pudesse servir para dar a conhecer e avaliar os caminhos percorridos, desde o Vaticano II, na reorientação missionária, nas experiências de inculturação da fé, no campo da teologia africana, no imenso trabalho da Igreja na defesa dos direitos humanos e no conhecimento dos desafios que a conjuntura actual levanta aos cristãos. A opinião pública continuará a desconhecer um mundo cheio de novidades no encontro com o essencial da fé cristã em versão africana
.

In, Publico, Domingo,29 Março

NR

Texto oportuno para quem, como por aqui  constatamos, continua a colocar África na sofrida agenda daqueles para quem tarda um futuro risonho, estável, libertador. Vejam os recados nas últimas cartas enviadas pelos meninos de Bulenga.Deixam-nos a pensar.Obrigam-nos a agir.

antónio colaço

 



publicado por animo às 07:57
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