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Seremos nós, hoje, seres mutantes? Será que as transformações tecnológicas e culturais das últimas décadas nas sociedades desenvolvidas são mudanças que apenas alteram, embora às vezes muito substancialmente, as características, as rotinas e as expectativas do ser humanos?
Ou estaremos, o que é muito diferente, face a uma verdadeira mutação, isto é, perante um conjunto de alterações mais profundas e radicais, que permitem falar da emergência de um novo perfil antropológico do próprio ser humano?
Esta é uma questão decisiva, talvez mesmo a mais decisiva que hoje podemos colocar, tanto do ponto de vista político como numa perspetiva civilizacional. E ela abre um debate que alimenta, e vai animar nos próximos tempos, muitas e variadas controvérsias, que não vão ser fáceis de decidir, num ou noutro sentido.
Eu aposto na via da mutação. Faço-o não por uma qualquer simpatia com a perspetiva da rutura, mas porque me parece que se multiplicam os fatores de diferenciação e, sobretudo, de não-retorno, que apontam nesse sentido. Vejamos alguns, tal como se apresentam em três experiências nucleares de qualquer ser humano, como são as do corpo, do tempo e da comunicação com as novas tecnologias.
Vive-se hoje quase mais um terço do que se vivia há um século. Mas este dado objetivo, por si só absolutamente notável, trouxe com ele mudanças subjetivas tão inéditas como extraordinárias em termos de modo e de qualidade de vida.
Quase desapareceram os elementos que faziam parte da experiência central e imemorial da humanidade, como a dor, a febre ou o sofrimento, que deram lugar a um corpo que é vivido como uma garantia de bem estar, que torna normal pensar alcançar a felicidade na terra, sem ter de se esperar pela "outra" vida.
Viver muito, e bem, foi uma transformação que mudou radicalmente a relação do indivíduo contemporâneo com o seu próprio corpo, que passou a ser vivida de um modo mais positivo, nomeadamente valorizando sem complexos todo o domínio dos sentimentos e das emoções.
Mas enquanto o corpo se tornou mais subjetivo, o tempo, pelo contrário, tornou-se cada vez mais objetivo, externalizando-se e impondo à vida de todos um ritmo cada vez mais vertiginoso, dominado por todo o tipo de urgências.
Como se corrêssemos para a morte, que justamente por isso temos de ignorar! Com efeito, no tempo tradicional, a morte aparecia como uma perspetiva, uma experiência e um horizonte, digamos, naturais.
O indivíduo contemporâneo, ao invés, baniu a morte do seu tempo, da sua proximidade e da sua experiência, como se tratasse de um impensável quase absoluto que apenas se tolera na animação ecrãnica.
As novas tecnologias, por sua vez, criam um contexto inédito para estas mutações na forma de viver o corpo e o tempo - é com elas que verdadeiramente se troca de fase, no sentido da mutação antropológica.
É que com elas, e nomeadamente com o telefone portátil e com o computador pessoal, com os smartphones e os tablets, a definição do ser humano passa a ser dada pela sua conectabilidade: a sua identidade decorre fundamentalmente não do seu enquadramento familiar, profissional ou social, mas de estar "ligado", e das modalidades desta conexão.
Mas estar "ligado" significa, paradoxalmente, para o homo digitalis poder desligar-se de tudo - seres humanos, ambiente de trabalho, ligações familiares, etc. - o que o rodeia. Facto que, embora traduza uma nova e enorme dependência, é em geral vivido como uma libertação. E não como uma libertação qualquer, mas como uma libertação que abre o caminho a um sentimento de jubilatória omnipotência.
Como se, quanto mais descontextualizado se estivesse, mais forte um indivíduo se pudesse tornar, ilusão dificilmente contestável na medida em que ela lhe oferece "um" mundo que lhe permite, afinal, ignorar o mundo, mesmo todo o mundo.
Para um ser humano "ligado", o tempo é apenas o da atualidade, que impõe o curto-termismo. Uma atualidade que invade - como se a pudesse substituir - a própria vida interior dos indivíduos, ao mesmo tempo que os priva de qualquer visão global sobre a sociedade a que pertencem.
O que acontece porque se vive num regime de aceleração que dilui a perceção as várias temporalidades num presente perpétuo, excitantemente extático, em que os acontecimentos se multiplicam na razão inversa da compreensão do seu sentido.
O tempo comprime-se, o atordoamento instala-se, vive-se com a angustiante noção - que contraria todas as promessas da utopia tecnológica - de que realmente não há tempo para nada.
Os tão badalados como incompreendidos problemas de disciplina escolar, de incivilidade e de falta de educação da juventude, nascem justamente dessa desconexão entre os vários ambientes, ou contextos, em que os jovens hoje vivem, o digital e o natural. Em que o primeiro é considerado vital e suscita uma crescente fidelidade e o segundo é visto como descartável e é votado a um crescente desprezo.
As consequências de tudo isto são imensas e avassaladoras: basta pensar que, pela primeira vez na história da humanidade, a identidade dos indivíduos é construída não pelo sentimento de pertença e de integração num coletivo, mas pela sua radical des-pertença, por um nomadismo identitário que não segue nenhuma rota nem procura qualquer destino
Nota: na crónica da semana passada, o valor a que se refere François Lenglet no livro, que cito, 'Qui va payer la criseuro?', é 'mille milliards', isto é, um bilião na nomenclatura portuguesa. Número que tem não nove mas doze zeros. A correção do lapso, devida ao leitor, aqui fica.
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