Sábado, 4 de Julho de 2015
WEBANGELHO SEGUNDO ANSELMO BORGES

18313714_2tdsj.jpg

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Pe Anselmo Borges
In DN
JESUS E A POLÍTICA 

1 Em 2011, realizei um colóquio internacional sobre "Quem foi/Quem é Jesus Cristo?", com especialistas de vários horizontes do saber. Paulo Rangel foi um dos conferencistas. Ele acaba de publicar o texto, numa edição apoiada pelo Grupo do Partido Popular Europeu, com tradução para francês e inglês e uma belíssima reprodução da Pietà (segundo Delacroix) de Van Gogh, 1889: Jesus e a Política. Reflexões de Um Mau Samaritano. Para a apresentação, convidou o ex--presidente da Assembleia da República, Jaime Gama, agnóstico, e o filho deste, João Gama, católico, professor de Direito Fiscal na Universidade Católica. O Salão Árabe do Palácio da Bolsa foi pequeno para acolher centenas de pessoas, numa grande noite cultural sobre Jesus.

 

2 Qual é a tese de Paulo Rangel, que se define a si mesmo como "cristão de cultura católica" "e não simplesmente um católico"? Em Jesus, não há "a ousadia de um programa temporal e o risco de um projecto social ou societal", "pensamento ou ensinamento político". Porque "o ensinamento de Jesus aspira à totalidade, mas não é total". O próprio poder sabe que "não é ao poder que Jesus vem, nem é ao poder que Jesus vai". A proposta de Jesus dirige-se a todos e a cada um, sem excluir ninguém, numa "política do amor", uma contradição nos termos, porque transcende a política. Jesus não foi político nem fez política, "mas não deixa de ser politicamente perturbador e politicamente relevante". "Jesus e o Seu ensinamento estão de tal maneira alheados dos limites quase físicos da política que representam um marco de "provocação à política", de "provocação" política."

Daí, a pergunta essencial de Rangel: a que título o poder precisou de desfazer-se dele, num julgamento? Podia tê-lo feito de modo expedito, armando uma cilada, por assassínio...

 

3 Numa brilhante intervenção de cariz teológico, Jaime Gama deu indicações para expandir as reflexões de Rangel. "Estamos perante um texto louvável, mas redutor, porventura demasiado espiritualista, demasiado individualista na utilização que faz do texto neotestamentário e não enquadrando tudo num contexto mais vasto e geral que é aquilo que constitui na verdade a presença testemunhal da Igreja de Cristo na sociedade humana e no próprio ordenamento cósmico, desde a sua origem até ao Apocalipse." Não há referência à relação de Jesus com o Pai nem à presença do Espírito Santo na Igreja, Povo de Deus, de tal modo que, dessubstancializando a doutrina e mensagem cristológica, não se permite, por exemplo, uma Doutrina Social da Igreja, "a possibilidade de definir uma doutrina inspiradora para a responsabilidade dos homens no quadro da criação". João Gama seguiu outra via: "Aquilo que Paulo Rangel não diz, e eu penso que ninguém diz, é que Jesus é um não político." Jesus joga com "a surpresa na política: o amor", um amor que "não é só dar a outra face, é a destruição da inimizade do inimigo". Por isso, é um provocador da política. Se se pensar bem, o reino político "também não é deste mundo": há a necessidade de querer um mundo melhor e transformá-lo. Assim, não concorda com o subtítulo da obra, porque "todo o político, mesmo o mau, é um bom samaritano". O mau samaritano é aquele que fica a ver e nada faz.

 

4 Coube-me abrir o debate e moderá-lo. Jesus é "figura determinante" (K. Jaspers) na história da humanidade, incompreensível sem ele. A sua influência é decisiva: foi, por exemplo, por seu intermédio que a ideia de pessoa veio ao mundo. Mesmo se teve de impor-se contra a Igreja institucional, não é por acaso que a doutrina dos direitos humanos nasceu em contexto, também geográfico, cristão. Vários pensadores de renome o sublinharam: foi pelo cristianismo que soubemos da "infinita digni-dade" do homem (Hegel), que nenhum ser humano pode ser tratado como "gado" (E. Bloch), "um homem, um voto" é a tradução política da fé religiosa na relação de Deus com cada ser humano (J. Habermas). A laicidade do Estado, que garante a liberdade religiosa de todos, já estava em gérmen na palavra de Jesus: "A César o que é de César e a Deus o que é de Deus." Jesus não pretendeu conquistar o poder para impor um programa político, mas deixou a igualdade de base, a justiça, a dignidade de todos como critério de "Juízo Final" e da religião verdadeira, sem nada de confessional: "Tive fome e destes-me de comer; tive sede e destes-me de beber; vestistes-me, fostes visitar-me, estando eu doente ou na cadeia..." Na fé na ressurreição de Jesus anuncia-se a vida eterna, e, como observou Tocqueville, enquanto os homens acreditaram na eternidade, até neste mundo construíam de modo durável; hoje, sem eternidade, o tempo reduz-se a instantes que se devoram uns aos outros e, vivendo num presentismo niilista, até a política se ressente do curto-prazismo. No Salão Árabe, vinha à mente a urgência da reflexão sobre o diálogo intercultural e inter-religioso.

 



publicado por animo às 20:37
link do post | favorito

Comentar:
De
  (moderado)
Nome

Url

Email

Guardar Dados?

Este Blog tem comentários moderados

(moderado)
Ainda não tem um Blog no SAPO? Crie já um. É grátis.

Comentário

Máximo de 4300 caracteres



Copiar caracteres

 



pesquisar
 
Março 2018
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
12
13
15
16
17

18
19
20
21
22
23
24

25
26
27
28
29
30
31


posts recentes

DA ARTE E DOS ESPAÇOS INE...

OBRIGADO, MANUEL

ANTONIO COLAÇO NO "VOCÊ N...

PE ANSELMO BORGES NOS ANI...

ANA SÁ LOPES NOS AAAANIMA...

ANA SÁ LOPES NOS ANIMADOS...

O OUTRO LADO DO AAANIMADO...

LISBOAS

CHEF PEDRO HONÓRIO OU AS ...

BALANÇO FINAL . JOAQUIM L...

REGRESSARAM OS AAANIMADOS...

IN MEMORIAM ANTÓNIO ALMEI...

PE ANSELMO BORGES NÃO TE...

MINISTRO CAPOULAS SANTOS ...

WEBANGELHO SEGUNDO ANSELM...

CARDIGOS, AS CEREJAS E O ...

trip - ir a mundos onde n...

´WEBANGELHO SEGUNDO ANSEL...

ANDRÉS QUEIRUGA EM PORTUG...

WEBANGELHO SEGUNDO ANSELM...

arquivos

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Outubro 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

tags

todas as tags

links









































































































































































































subscrever feeds