Segunda-feira, 14 de Março de 2016
WEBANGELHO SEGUNDO FREI BENTO DOMINGUES ( edições de 6 e 13 d março)

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O gosto perverso de acusar

Ainda persiste o gosto de novas formas de apedrejar “suspeitos” em praça pública.

1. Bergoglio, desde que foi nomeado bispo de Buenos Aires, empenhou-se em transfigurar, a partir da sua prática, o imaginário religioso do confessionário. Viu que era preciso fazer dos lugares de tortura psicológica e moral espaços e tempos de festa, mediante a manifestação da misericórdia infinita de Deus no comportamento dos confessores.

O sacramento de reconciliação tem e teve muitos nomes, até o de "tribunal". Numa aula de teologia dos Sacramentos, um estudante, ao ouvir tal designação, exclamou: só podia ser um tribunal fascista! Para o Papa Francisco, o confessionário tornou-se um dos lugares da prática mais profunda da sua teologia da libertação e da sua actuação pastoral.

No passado dia 9 de Fevereiro, na celebração da Eucaristia, rodeado de franciscanos Capuchinhos, disse-lhes directamente: "a vossa tradição é a do perdão, oferecer o perdão". Só aquele que se sente pecador pode ser um grande perdoador no confessionário. Os que se julgam puros e mestres sabem apenas condenar.

O argentino universalizou depois, de modo coloquial, a sua exortação [1]: "Falo-vos como irmão e, em vós, gostaria de falar a todos os confessores, especialmente neste Ano da Misericórdia: o confessionário existe para perdoar. Se tu não puderes dar a absolvição — admito esta hipótese — ‘não maltrates!’ A pessoa procura conforto, perdão, paz na sua alma; quer encontrar um sacerdote que a abrace, lhe diga e lhe faça sentir: ‘Deus ama-te!’ Lamento ter de o dizer, mas quantas pessoas se queixam — creio que a maioria de nós já terá ouvido esta observação: ‘nunca me vou confessar porque certa vez me perguntaram, fizeram-me isto e aquilo .’ Por favor!"

Finalmente, com humor carinhoso, apresentou o exemplo de um grande perdoador capuchinho que ele conheceu. Tinha sempre pessoas em fila de espera para se confessarem. "Uma vez, ao visitá-lo, disse-me: Tu és bispo e podes esclarecer-me: eu penso que peco porque perdoo demais; ando com este escrúpulo, mas encontro sempre o modo de perdoar". Que fazes, perguntou-lhe Bergoglio, quando te sentes assim? "Olha, vou à capela e, diante do tabernáculo, digo: desculpa-me, Senhor, perdoa-me, penso que hoje perdoei demais. Mas, foste tu, Senhor, quem me deu este mau exemplo".

2. O Sumo Pontífice aproveitou a ocasião para tornar o seu discurso ainda mais abrangente: "Existem outras linguagens na vida. Não há apenas a palavra. Temos também os gestos. Se uma pessoa se aproxima de mim, no confessionário, é porque sente algo que lhe pesa, do qual deseja libertar-se. Talvez não saiba como dizer, mas o gesto fala. Se esta pessoa se aproxima, é porque gostaria de mudar, deixar de fazer isto ou aquilo, de se transformar, ser pessoa de outra maneira. Isto é dito através deste gesto de aproximação. Não é preciso fazer perguntas do género: mas tu?... Se alguém se aproxima é porque na sua alma quer mudar. Mas muitas vezes está condicionada pela sua psicologia, pela sua vida, pela sua situação. Ad impossibilia nemo tenetur" (ninguém é obrigado a coisas impossíveis).

Com esta peça de antologia, Francisco desautorizou séculos de práticas de opressão pseudo-religiosa. No entanto, o que o preocupa é o presente e o futuro. Encerrou a sua homilia com uma exortação cheia de afecto responsabilizante: O perdão é uma carícia de Deus. Na Bíblia, o grande acusador é o diabo ou os que o imitam, os que têm gosto em acusar, como os escribas e os fariseus.

3. A cena evangélica deste domingo é muito conhecida e vai na mesma direcção. Levaram a Jesus, para lhe armarem uma cilada, uma mulher surpreendida em flagrante adultério [2]. O texto não está muito preocupado com questões jurídicas concretas a esse respeito [3]. O que lhe interessa é mostrar Jesus a desmascarar as pessoas que se julgam santas, cumpridoras exemplares das leis religiosas e que andam sempre à procura de poderem acusar alguém, no caso, escribas e fariseus. Hoje, ainda existem muitas sociedades que usam os mesmos bárbaros processos. Importa encontrar os meios adequados para varrer da face da terra essa vergonha.

A preocupação de Jesus era, pelo contrário, desmascarar a hipocrisia desses acusadores, prontos a matá-la à pedrada. Jesus escreve na areia com um desprezo infinito por aquele zelo bíblico. Desarma os atiradores com uma simples observação: Quem de entre vós estiver sem pecado atire a primeira pedra. Remédio eficaz: puseram-se todos a andar a começar pelos mais velhos.

Nas sociedades ocidentais, esta prática desarmada por Jesus já não é a mais comum. Em questões de sexo, vale tudo ou quase, embora o voyeurismo ainda alimente alguns meios de comunicação social. Mas o gosto perverso de acusar, de encontrar alguém em falta, dentro e fora das religiões, nos espaços sagrados ou profanos, diz-nos que os fariseus e os escribas ainda não são uma espécie em extinção. Quem dera! Mas ainda persiste o gosto de novas formas de apedrejar "suspeitos" em praça pública.

[1] Cf. L’Osservatore Romano semanal

(11.02.2016). A tradução, mesmo com arranjos, é sempre má. Os itálicos e as deslocações das aspas são da minha responsabilidade

[2] Jo 8, 1-11

[3] Cf. Deuteronómio 22, 13-29

 

Um contador de histórias subversivas

A Eucaristia é um convite para a festa, para a festa de Deus revelada nos gestos e nas palavras de Jesus.

1. Segundo os evangelhos sinópticos [1], Jesus não deu nenhum contributo para o avanço das ciências, nem revelou um grande pendor metafísico, embora não faltem investigadores que, hoje, o reconheçam como um filósofo.

O facto é que não deixou nada escrito. A sua breve intervenção pública acabou num fracasso tão vergonhoso, que ninguém poderia descobrir alí qualquer caminho de futuro. Aconteceu que os seus seguidores, depois de várias crises, não recalcaram a sua memória. Alguns judeus continuaram a ver, naquele carpinteiro de Nazaré, o messias esperado; outros recusaram-no, o que nada tem de surpreendente. Passados dois mil anos, Daniel Boyarin, conhecido especialista do Talmude, observa que se há alguma coisa que os cristãos sabem bem a propósito da sua religião é que ela não é o Judaísmo. Se há alguma coisa que os judeus sabem bem a propósito da sua religião é que ela não é o cristianismo. Segundo esse professor de Berkeley, reexaminando as suas fronteiras, nem sempre foi assim nem tem que continuar assim [2]. Mais ainda: certos judeus que o tinham considerado um traidor, como aconteceu com Paulo de Tarso, acabaram por descobrir que Jesus era e é o Cristo de uma dimensão tal que não cabia nos horizontes de um só povo. As suas cartas são reconhecidas como os primeiros escritos cristãos. São textos de interpretação da significação de Jesus Cristo nas experiências de transformação da vida das comunidades cristãs.

Nas famosas Epístolas paulinas, o Jesus pregador da vinda do Reino de Deus reaparece como Cristo pregado, esperança da ressurreição e fonte divina de salvação universal, cósmica.

Os fogosos escritos de S. Paulo, deslumbrados pela fé no Ressuscitado, não apagaram, no entanto, a memória “histórica” de Jesus.

Dispomos de quatro narrativas, com objectivos, origens e estilos diferentes, mas com o mesmo assunto: Jesus de Nazaré, o amado de Deus cravado na Cruz e que a morte não pode conter. Os três Evangelhos sinópticos insistem em Jesus pregador da proximidade do Reino de Deus. Gosto de ler esses textos imaginando Jesus a contar histórias e a participar em acontecimentos subversivos. 

Os historiadores preocupam-se em destrinçar o que se pode dizer de Jesus observando o método histórico e o que deve ser atribuído às reconstruções feitas a partir da fé das comunidades cristãs. Os textos dos Evangelhos testemunham de Jesus Cristo vivido nas antigas e novas experiências humanas das comunidades. Não cortam nem com a história nem com a realidade presente. As Escrituras crescem com os seus leitores. O real não é só o comprovadamente histórico.

Quando os pregadores repetem as leituras bíblicas da missa, atraiçoam a sua missão. Não fazem a ponte - nem pedem para ser ajudados a fazer essa ponte - entre o passado e a nossa actualidade tão complexa.

2. Neste Domingo, é proclamada a parábola do Filho Pródigo [3]. Espero que nenhum pregador a vá apresentar como uma boa prática a recomendar aos pais e educadores. Seria um desastre. Compensar e festejar os mais mal comportados!? Mas não há nada como ler essa bela narrativa de um filho estroina, um pai que perde a cabeça e do filho ajuizado, completamente indignado.

A linguagem das parábolas não é a dos catecismos nem a dos manuais de boas maneiras. Destina-se, no caso dos Evangelhos, a subverter as representações que temos de Deus e da religião. A nossa tendência é fazer um Deus à imagem dos nossos interesses. O que as parábolas dizem, sem dizer, é que a lógica de Deus é muito diferente da nossa mediocridade e justiça mesquinha.

A parábola não ensina, dá que pensar. Liberta a imaginação. Não nos deixa acorrentados às religiões que herdámos. A fé cristã, ao proclamar, na Eucaristia dominical, a parábola do Filho Pródigo vem dizer: não estraguem o Domingo! É a festa das pessoas em processo de transformação. A Eucaristia - o Papa Francisco tem insistido muito neste ponto - não é um prémio, uma recompensa para os bem-comportados, segundo um código de moral convencional. É um convite para a festa, para a festa de Deus revelada nos gestos e nas palavras de Jesus.



publicado por animo às 21:39
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