Terça-feira, 14 de Junho de 2016
WEBANGELHO SEGUNDO FREI BENTO DOMINGUES

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 Frei Bento Domingues
In Público
12 Junho

 

 AS FREIRAS E O PAPA

1. Diz-se que entre as coisas que o Espírito Santo ignora é o nome e o número das congregações religiosas femininas. Não é segredo para ninguém que muitas estão em crise, o que pode baralhar ainda mais as contas. Ao contrário do que muita gente pensa, não são uma espécie em extinção. É verdade que nenhuma tem promessa de eternidade, mas ao longo da história da Igreja, quando algumas desaparecem surgem outras. Deslocam-se, de país para país, de continente para continente muito mais depressa do que as comunidades masculinas. Estão, por vezes, com muitas dificuldades num país ou num continente e cheias de vigor noutros. Entre as de vocação contemplativa, há semelhanças e diferenças, mas entre as de vida activa, variam mais os estilos e a história do que os carismas propriamente ditos.

Perguntar se o futuro da Igreja é também feminino é ridículo. O livro [1], recentemente publicado, com esta interrogação é muito estimulante para pensar o papel das mulheres na Igreja, que se encontram sempre nas periferias mais arriscadas e nas intervenções mais inovadoras.

A interrogação não me espanta. Segundo as narrativas do Novo Testamento - alterando os esquemas da situação da mulher no judaísmo – foram elas que ressuscitaram a fé e a esperança do movimento cristão, nos ânimos dos discípulos, abalados com a crucifixão das suas espectativas de poder.

Os homens nunca lhes perdoaram esse atrevimento e depressa arranjaram doutrinas para as secundarizar a nível da direcção das comunidades e da presidência da celebração dos sacramentos, especialmente da Eucaristia.

Esqueceu-se que mulheres e homens, na Igreja, são todos sacerdotes pela mesma razão sacramental: não existe um baptismo próprio para homens e outro próprio para mulheres! A sacramentalidade da identidade cristã exprime-se no baptismo e alimenta-se na celebração da Eucaristia, cuja simbólica é uma refeição familiar, de muitas famílias. Jesus, aliás, exprimiu o seu projecto fazendo família com quem não era da sua família.

Isto não significa que Deus teve de esperar pela criação dos sacramentos cristãos para agir no coração de todas as pessoas, povos, culturas e religiões, com ou sem sistema expresso de crenças. Os sacramentos evocam a presença actuante de Deus. Precisam de Deus, mas Deus não depende das nossas celebrações para nos amar e nos fazer bem.

Criaram-se, na história da Igreja, muitos equívocos acerca da própria palavra sacerdote. No Novo Testamento, é reservada a Cristo e ao conjunto dos baptizados. Com o tempo, passou a chamar-se sacerdote a quem desempenhava um ministério ordenado na Igreja e foi eclipsado o sacerdócio de todos os fiéis, homens e mulheres. Santo Agostinho ainda distinguia: Convosco sou cristão, para vós sou Bispo. Bispo era, e continua a ser, uma função destinada ao serviço do povo sacerdotal.

2. Uma freira, a Irmã Rita Giaretta, da Congregação das Irmãs Ursulinas do Sagrado Coração de Maria, dirigiu ao Papa, uma carta aberta mostrando que a Igreja deve respirar com dois pulmões: feminino e masculino.

Caro Papa Francisco, entre tantas “revoluções” que foste chamado a levar por diante, penso que este é um dos desafios mais importantes e necessários: libertar a face da igreja da sua escravidão masculina, isto é, daquela imagem que sabe a autoritarismo, privilégio, poder sagrado, domínio e restituir-lhe o rosto bonito, luminoso e transparente de Deus, Mãe e Pai [2].

Esta carta exprime algo que surgiu também no diálogo do Papa com as participantes no Plenário da União Internacional das Superioras Gerais, em Maio de 2016.[3] Foi, de facto, um diálogo longo. As freiras disseram o que tinham a dizer e o Papa também lhes respondeu com toda a franqueza. Manifestou as suas convicções, as suas hesitações e, sobretudo, que há muita coisa que é necessário rever. Não apareceu dotado de infabilidade e com receitas para o futuro. Quer abrir caminhos com elas. Não pretende ser a superiora geral das freiras.

Acautelou para dois perigos: a intervenção activa da mulher na vida da Igreja não resulta de uma moda feminista. Seria reduzir o seu direito de baptizada com os carismas e os dons que o Espírito lhe concedeu. O outro é uma tentação muito forte, o clericalismo. O padre a mandar sozinho em tudo. Ou seja, deseja clericalizar o leigo, a leiga, o religioso, a religiosa e, pior ainda, quando todos estes pedem, por favor, para serem clericalizados, porque é mais cómodo. Bergoglio, porém, insistiu com as freiras: estai sempre prontas para servir; não aceiteis a servidão!

3. O acesso de mulheres ao diaconado é visto como uma esperança e um receio. Uma esperança, porque não há dois sacramentos da Ordem. Será, portanto, um ministério ordenado. Um receio porque não se vê, depois, qual o obstáculo a que não sejam também ordenadas ao presbiterado e ao episcopado. No diálogo do Papa com as superioras gerais, sente-se um incómodo deixado pela recusa, como definitiva, de João Paulo II. Mas não houve proclamação de um dogma de fé. Um obstáculo teológico é também um convite às teólogas e aos teólogos para não deixarem eternizar uma decisão muito circunstanciada.

Bom trabalho.

[1] Lucetta Scaraffia (coor), O futuro é também feminino?, Paulinas, 2016

[2] Cf. Frei Severino, Mulheres diaconisas, Mensageiro de Sto António, Junho, Nº 6, 2016

[3] Diálogo do Papa com as superioras gerais, As mulheres na vida da Igreja, L’ Osservatore Romano, 19 de Maio 2016, pp 7-11

 

 


Frei Bento Domingues
In Público
5 Junho

ÉTICA E RELIGIÃO

1. Tornou-se um lugar-comum dizer que, na fonte de todas as grandes tradições religiosas, existe uma experiência original do Mistério Absoluto, ou de Deus, irredutível a qualquer categoria criada para o exprimir. Foi o que tentei mostrar no domingo passado. Mahatma Gandhi estava convencido de que, se pudéssemos ler as escrituras das diversas religiões, chegaríamos à conclusão de que todas elas estão de acordo nos seus princípios básicos, úteis para todos.

Pode-se perguntar se haverá alguém que possa viver, por dentro, as experiências de todas as tradições religiosas nas suas diversas evoluções e interpretações? Duvido! Será isso necessário para cultivar o respeito pela diversidade cultural e religiosa? Creio que não. O que julgo indispensável é o questionamento ético dentro de toda a actividade humana e, por isso, também dentro de todas as práticas religiosas.

Para o grande cientista, Francisco J. Ayala, professor de Genética na Universidade da Califórnia, o comportamento ético é determinado pela nossa natureza biológica. Por comportamento ético, ele não entende a boa conduta, mas o imperativo de julgar as acções humanas como boas ou más.

A constituição biológica do ser humano determina-lhe a presença de três condições necessárias – e, em conjunto, suficientes – para que se dê esse comportamento ético: a capacidade de prever as consequências das suas próprias acções; a de fazer juízos de valor; a de escolher entre linhas de acção alternativas. A capacidade de estabelecer relação entre meios e fins é a aptidão básica que permitiu o desenvolvimento da cultura e das tecnologias humanas.

Este cientista sustenta que as normas morais e os códigos éticos não dependem da nossa natureza biológica, mas da evolução cultural. As premissas dos nossos juízos morais provêm da tradição religiosa e de outras tradições sociais, mas apressa-se a acrescentar: os sistemas morais, assim como qualquer outra actividade cultural, não podem sobreviver muito tempo se evoluem em franca contraposição com a nossa natureza biológica [1].

2. Sem o exercício de uma ética intercultural é difícil criar um clima de respeito mútuo que exija a recusa das tentações de dominação económica, política, cultural e religiosa. Todas as tradições religiosas precisam de viver em reforma permanente a partir do que existe de mais humanizante em cada uma delas. Este é sempre um bom teste da sua autenticidade mística, se não confundirmos uma pessoa mística com uma múmia.

Jesus de Nazaré pôs em causa o que havia de mais sagrado na religião em que cresceu, a partir de um postulado ético radical: o Sábado é para o ser humano e não o ser humano para o Sábado. O dia de Deus, para não se tornar o dia da suprema idolatria, tem de coincidir com o da promoção da maior liberdade. As instituições que não seguem este critério metem os humanos numa cadeia religiosa e fazem-lhes o que não fazem aos animais [2].

O Papa Francisco, ao propor o Evangelho da Alegria, como base das suas reformas libertadoras, encontrou um terreno armadilhado com doutrinas e práticas pastorais, com sistemas de resistência, a nível central e local, de cardeais, bispos, padres e leigos clericalizados e mais papistas que o Papa. Como Bergoglio disse, o medo da alegria é uma doença do cristão. São como aqueles animais, especificou o Papa, que conseguem sair apenas de noite, porque à luz do dia não conseguem ver nada. São os cristãos morcegos [3].

3. Para Michael Lonsdale, um grande actor de cinema e teatro, baptizado aos 22 anos, depois de uma longa busca espiritual, confessa: Jesus é o coração da luz, a fonte de toda a respiração humana. Este homem é, para mim, a verdade que não pode mentir. Li muitos grandes textos espirituais, interessei-me por diferentes religiões e sabedorias, muçulmanas, budistas ou vindas da Índia… Há coisas muito belas nos Upanishads, no Budismo e, sem dúvida, nos filósofos que tenho dificuldade em ler. Com Cristo, eis-nos na única religião onde o amor vem primeiro que tudo. Para mim, não há nada mais forte do que as palavras de Jesus.

O ser humano procura Deus. Há budistas maravilhosos, hindus com uma sabedoria impressionante, mestres sufis… Senti-me muito feliz a gravar textos de Lao-Tsé ou de Confúcio. Mesmo nas religiões primitivas como os Maias ou os Aztecas, a humanidade aspira a este encontro com o divino, ficando por vezes disposta aos gestos mais loucos.

(…) Em toda a minha vida, aquilo que li mais verdadeiro foi o Evangelho. A palavra de Jesus é a mais justa, a que suscita mais vida. É fonte de bondade, de generosidade entre os seres humanos. Esta generosidade, este cuidar dos outros em primeiro lugar, toca-me profundamente [4].

Reproduzi uma breve passagem deste emocionado testemunho porque, ao dizer a originalidade da sua fé, não precisou de diminuir o que de belo e verdadeiro encontrou nas outras tradições religiosas. A ética e a religião encontraram-se e são boa companhia.


[1] Francisco J. Ayala, A Natureza Inacabada, Dinalivro, 1998, pp.261-294

[2] Lc 13, 10-17; 14, 1-6

[3] Papa Francisco, O Espírito da Quaresma e da Páscoa, Paulus, 2016 pp 121-124

[4] Michael Lonsdale, O Amor Tem Rosto, Paulinas, 2016



publicado por animo às 18:45
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