Sábado, 30 de Julho de 2016
WEBANGELHOS SEGUNDO ANSELMO BORGES

 

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NR 

Mais um pedido de desculpa pelo atraso na regular publicação destes Webangelhos.Seguem as três últimas crónicas!
REPARE SÓ NO APERITIVO DE UMA DELAS:
 
"Antes de sermos crentes ou não, o que nos une a todos é a humanidade comum, de tal modo que, face a um deus que legitimasse a violência, o ódio, matar em seu nome, haveria, para sermos humanamente dignos, um dever moral: ser ateu."
 

 

 

 

 

 AS OBRAS DE MISERICÓRDIA (1)
In Dn 23 de Jul

 

Há hoje um acordo praticamente unânime. Jesus de Nazaré foi um homem, talvez o único, que viveu e comunicou uma experiência sã de Deus, sem desfigurá-la com os medos, ambições e fantasmas que, habitualmente, as diversas religiões projectam sobre a divindade." Quem isto escreve é o grande exegeta José Antonio Pagola. A citação provém do livro Entrañable Dios. Las obras de misericordia: hacia una cultura de la compasión, que escreveu com outro grande teólogo, Xabier Pikaza, e aparece no contexto da definição de Deus. O nome de Deus é misericórdia. "A compaixão é o modo de ser de Deus."

 

 

Neste sentido, Jesus contou histórias que abalam uma Igreja clericalizada, centrada no culto. Lá está, por exemplo, o bom samaritano. Um homem foi espancado e roubado, ficando meio morto à beira da estrada. E passou por ali um sacerdote, que se desviou para nem sequer o ver. O mesmo fez um levita que servia no Templo. Mas um samaritano, estrangeiro e considerado herético pelos judeus, que não frequentava o Templo, comoveu-se, aproximou-se, cuidou dele e pagou adiantadamente na estalagem, para o tratarem, prometendo que, na volta, pagaria o que faltasse. O doutor da Lei tinha perguntado: "Quem é o meu próximo." Agora, é Jesus que lhe pergunta: "Quem foi o próximo daquele desgraçado?" "O samaritano." E Jesus: "Vai e faz o mesmo." Não o mandou para o Templo. De que vale o culto desligado da justiça, da proximidade de quem se encontra na valeta da vida?

O juízo final sobre a história do mundo e da humanidade não versa em primeiro lugar sobre coisas directamente referidas à religião, mas à justiça e a esta proximidade: "Tive fome e destes-me de comer, tive sede e destes-me de beber, era peregrino e recolhestes-me, estava nu e destes-me que vestir, adoeci e visitastes-me, estive na prisão e fostes ter comigo." E vai haver um espanto: "Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, ou com sede e te demos de beber? Quando te vimos peregrino e te recolhemos, ou nu e te vestimos? E quando te vimos doente ou na prisão, e fomos visitar-te?" E o Deus de Jesus responde: "Em verdade vos digo: Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes. Sempre que deixastes de fazer isto a um destes pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer."

É arrasador: o que em primeiro lugar decide da salvação não são actos de culto, mas os que contribuíram para um mínimo de dignidade humana. Por isso, Jesus, com escândalo de muitos, porque comia com publicanos e pecadores, coloca na boca de Deus as palavras do profeta: "Quero misericórdia e não sacrifícios." O teólogo José M. Castillo comenta de modo frontal: "Jesus afirma aqui que Deus quer que os seres humanos se comovam com bondade e misericórdia para com os outros, mesmo que sejam maus e até se a prática da bondade implicar a violação de uma lei religiosa. Isto, embora seja um escândalo para os mais puritanos, é o que o Evangelho diz", indo até mais longe, ao estabelecer uma "antítese" entre a "misericórdia" e o "sacrifício", isto é: "O que Jesus diz é que, se for preciso escolher entre a "ética" e o "culto" (entre a "justiça" e a "religião"), o que está primeiro é a ética, a honradez, a defesa da justiça e os direitos das pessoas. Se isto não se antepuser a tudo o mais, Deus não quer que tranquilizemos as nossas consciências com missas, rezas, devoções e coisas do género." É preciso restituir a todas as pessoas o seu bem maior: a dignidade.

E aqui estão as chamadas obras de misericórdia. Misericórdia quer dizer, etimologicamente, olhar com o coração para a miséria do outro, com compaixão, o que significa, também a partir do étimo, sofrer com o outro, fazendo seu o sofrimento dele. A partir daí, há uma comoção e uma reacção, que levam a comprometer-se com a erradicação do sofrimento ou, pelo menos, com o seu alívio, na imediatidade. Como escreveu o dramaturgo famoso Bertold Brecht, marxista e profundo conhecedor da Bíblia: "Contaram-me que em Nova Iorque,/na esquina da rua vinte e seis com a Broadway,/nos meses de Inverno, há um homem todas as noites/que, suplicando aos transeuntes,/procura um refúgio para os desamparados que ali se reúnem.//Não é assim que se muda o mundo,/as relações entre os seres humanos não se tornam melhores./Não é este o modo de encurtar a era da exploração./No entanto, alguns seres humanos têm cama por uma noite./Durante toda uma noite estão resguardados do vento/e a neve que lhes estava destinada cai na rua.//Não abandones o livro que to diz, homem./Alguns seres humanos têm cama por uma noite,/durante toda uma noite estão resguardados do vento/e a neve que lhes estava destinada cai na rua./Mas não é assim que se muda o mundo,/as relações entre os seres humanos não se tornam melhores./Não é este o modo de encurtar a era da exploração."

 

 

 

As obras de Misericordia (2)
In DN 30 Julh

No "Ano da Misericórdia", aí estão, com Xabier Pikaza, as obras de misericórdia. São catorze: sete corporais e sete espirituais. Vinculam a justiça e o coração: a misericórdia não pode esquecer a justiça, mas a justiça tem de ser mobilizada pela misericórdia. Para sermos humanos.

Obras de misericórdia corporais

1 "Dar de comer a quem tem fome". Há certamente muitas outras necessidades: afecto, cultura, carinho, palavra... Mas a maior e mais urgente é a comida. Nem só de pão vive o homem, mas sem pão não vive. É uma vergonha haver comida suficiente para todos e morrerem de fome todos os dias 40 mil pessoas (16 mil crianças). Há várias, mas duas são "as causas principais" da fome: o egoísmo de indivíduos e de grupos e a injustiça do sistema dominante.

2 "Dar de beber a quem tem sede". Sem água não há vida. Jesus disse: "Quem vos der de beber um copo de água não ficará sem recompensa." Multiplicar-se-ão os conflitos por causa da falta de água. O Papa Francisco chamou a atenção para isso na encíclica "Laudato sí", sobre a ecologia.

3 "Vestir os nus". "Os nus carecem de protecção pessoal, estão indefesos, desarmados, e à mercê da violência alheia." A roupa cobre, protege e dignifica. A nudez acaba por significar abandono e exclusão, e, sobretudo no caso das mulheres e das crianças, exploração e tráfico sexual.

4 "Dar pousada aos peregrinos". No Evangelho segundo São Mateus, são referidos concretamente os estrangeiros, aplicando-se o termo grego "xenoi" concretamente a homens e mulheres que formam parte de um grupo social e cultural diferente: "Fui estrangeiro e acolhestes-me ou não me acolhestes", dirá Jesus no juízo definitivo. "A pátria do cristão é o diálogo e o acolhimento."

5 "Assistir aos enfermos". Visitá-los, cuidar deles. Se, no Evangelho, há preocupação constante da parte de Jesus é pela saúde das pessoas, de quem cuida e que cura.

6 "Visitar os presos". Não se trata simplesmente de visitar. Trata-se de "oferecer-lhes assistência e cura, porque estão em necessidade (sejam culpados ou não) e porque podem curar-se".

7 "Enterrar os mortos". Miséria suprema: morrer e não haver ninguém a reclamar os mortos. Mas se isso acontece na morte, já na vida viveram abandonados. Esta obra de misericórdia realiza-se verdadeiramente não só na sepultura do cadáver, mas na exigência de acompanhar e ajudar na velhice, de modo eficaz, com dignidade.

Obras de misericórdia espirituais.

1 "Dar bom conselho". Uma tarefa de todos e para todos, mas de modo especial para os educadores, professores, conselheiros da consciência.

2 "Ensinar os ignorantes". Jesus foi um "mestre de sabedoria, que ensinou o povo simples, mal guiado por escribas ao serviço do poder religioso". Abriu os olhos das pessoas, para que pudessem descobrir o mistério de Deus e o seu amor para com todos, numa Escola de verdadeira Humanidade. O seu ensinamento não se dirigia à conquista do poder, mas ao serviço da sabedoria autêntica da vida plena.

3 "Corrigir os que erram". Os profetas bíblicos sabiam disto e, por isso, denunciaram e exigiram capacidade de mudança, não apenas na linha da interioridade, mas também no nível da transformação social. Sem conversão pessoal, não há justiça que baste.

4 "Consolar os tristes". Quem não precisa de consolação, em tempos de tanto desconsolo? Precisamos de quem seja fonte de paz para os outros, "para superar assim a depressão e a tristeza que vai crescendo como pandemia imparável numa Terra onde, ao lado de uma grande prosperidade, se estende a intransigência de alguns e a pobreza e desamparo de centenas de milhões de pessoas". Desamparo material e desamparo espiritual.

5 "Perdoar as injúrias". "Não se trata de perdoar, de um modo resignado, aguentando as injúrias, mas de converter o perdão em fonte de transformação pessoal e social. Quem perdoa não é cobarde, um ser passivo, incapaz de enfrentar o mal; pelo contrário, é alguém que vence o mal com o bem", confiando, portanto, na conversão de quem ofende.

6 "Sofrer com paciência as fraquezas do nosso próximo". Aqui, está-se numa perspectiva diferente da da anterior: já não se trata de perdoar aos inimigos, mas de suportar os defeitos daqueles com quem partilhamos o caminho: familiares, amigos, colegas. Há limites para o intolerável, mas é fundamental perceber que é preciso ter paciência com as diferenças e defeitos dos outros: "os puristas radicais destroem não só famílias, mas comunidades religiosas, igrejas" e grupos.

7 "Rogar a Deus pelos vivos e defuntos". Não se trata de espiritualismo perante o fracasso da vida, mas de comunhão profunda com todos no mistério da vida plena em Deus.

São também obras de misericórdia: proteger as mulheres, acolher/educar as crianças, perdoar as dívidas, libertar os escravos, partilhar os bens.

Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.

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O Dever moral de ser ateu

In DN 16 de Julho

1 Os ataques terroristas sucedem-se. E a mesma perplexidade por todo o lado: vivemos num mundo inseguro, brutal, louco. Que fazer? Os Estados têm de colaborar entre si, fazendo todo o possível para manter a segurança, não ceder à violência, respeitando a lei. Os cidadãos não podem ceder ao medo, pois esse é um dos objectivos do terrorismo: que as pessoas entrem em pânico, paralisá-las.

2 Já não se respeita sequer uma igreja. E ontem foi a degola, em França, de um padre católico, considerado corajoso e bom pela população. Só posso mostrar, com o Papa Francisco, neste e em todos os casos de terror, a minha "dor e horror" perante "esta violência absurda", que nada justifica. O terror, atingindo indiscriminadamente inocentes, homens, mulheres, crianças, crentes de várias religiões, ateus, tem de ser condenado de forma radical, sem hesitação. Porque é simplesmente terrível, a barbárie bruta, a inumanidade pura e simples.

3 Nada legitima este terror bárbaro. Mas deve haver a tentativa de explicar e entender. J. Philipp Reemtsma distinguiu três formas de violência: a exercida para conquistar um território, tirar algo a alguém, e a que tem o seu fim em si mesma: o prazer da violência. Neste sentido, teme-se que não seja completamente erradicável, já que pertenceria à constituição do ser humano. Daí, a urgência da educação para os grandes valores humanistas, para a paz, para a convivência na comunicação humana, e a atenção que é necessário prestar às causas que podem agudizar a violência: marginalização, não integração, falta de comunidade e de sentido, desorientação, injustiça. Certamente, o niilismo de valores reinante e o aliciamento das redes sociais para ideais de vinculação, com a participação na restauração do califado universal, por exemplo, ajudam nesta explicação.

4 E as religiões e a violência? É preciso entender que as religiões não são o Sagrado, o Mistério, Deus, de quem se espera sentido último e salvação. Elas são construções humanas, mediações, e, por isso, têm de tudo: do melhor e do pior. Há quem pense que, acabando com a religião, se encontraria finalmente a paz. Não é verdade. De facto, se a religião foi e é invocada para legitimar a violência, ela foi e é também força de combate a favor dos direitos e da paz: lembre-se, por exemplo, Martin Luther King ou a teologia da libertação.

5 Mas muito vai ser preciso fazer. Impõe-se o diálogo inter-religioso. Lúcido, fundamentado e crítico. Nenhuma religião pode pensar ter a verdade toda e absoluta. O fundamentalismo é uma questão de ignorância ou, perdoe-se-me a palavra, estupidez. De facto, como pode o ser humano possuir o Fundamento, a Ultimidade? Daí, a urgência de uma leitura histórico-crítica dos textos sagrados, que não são de modo nenhum ditados de Deus. E impõe-se a laicidade do Estado, sem cair no laicismo - a França, ao contrário da Alemanha, por exemplo, cometeu este erro do laicismo, ao pretender retirar a religião do espaço público.

6 Antes de sermos crentes ou não, o que nos une a todos é a humanidade comum, de tal modo que, face a um deus que legitimasse a violência, o ódio, matar em seu nome, haveria, para sermos humanamente dignos, um dever moral: ser ateu.

 



publicado por animo às 01:15
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