Domingo, 15 de Maio de 2016
WWEBANGELHO SEGUNDO FREI BENTO DOMINGUES

751166.jpg

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Uma Igreja sem conflitos?

Igrejas sem conflitos? Nem ontem nem hoje nem amanhã. A grande sabedoria consiste em não os negar nem os acirrar.

 

 

1. Igreja sem conflitos? Nem hoje nem ontem nem amanhã. A própria evocação dos seus mortos mais célebres serve, muitas vezes, para levantar conflitos entre os vivos.

Ninguém dispõe da fórmula exacta para realizar o mundo de novos céus e nova terra, sem lágrimas de dor ou de luto [1]. Ao sair da Missa onde foi anunciado esse sonho antigo, dizia-me um amigo: nos anos 50 do século passado, o P. Lombardi e o P. Vieira Pinto, contentavam-se com modestas propostas para um “mundo melhor” e nem aí chegamos! A própria União Europeia perdeu a pouca alma que tinha, desistiu da ousadia e caiu na burocracia.

Sem condições para comentar a significação do papel dos sonhos de uma “terra sem males”, comum a várias culturas arcaicas – com frutos amargos quando se tentou convertê-los em “programas científicos” de ordem social e política –, observei apenas que também a opção pelos “paraísos fiscais” talvez não seja a festa da ascensão aos céus da população mundial. Por aí ficamos.

No Domingo passado, transcrevi uma breve passagem da extraordinária Exortação, A Alegria do Amor, na qual o Papa Francisco se referia a duas lógicas que percorrem toda a história da Igreja, desde o concílio de Jerusalém [2] até hoje: marginalizar e reintegrar. Jesus, morto por uma coligação táctica, foi excluído de Israel e do Império romano [3].

A lógica que Bergoglio deseja adoptar é, sem dúvida, a da reintegração. Quando é possível. Perante situações escandalosas que envenenaram o serviço que a Cúria vaticana deve prestar à Igreja – os escândalos bancários, a vida faustosa de alguns cardeais e a situação de eclesiásticos pedófilos – impõem-lhe a destruição dessa falsa paz alimentada por corruptos. A justiça que é devida às vítimas desse nojo não é matéria de negociação. As manobras dos lobistas, desde há muito estabelecidas, não são fáceis de neutralizar, embora o Papa afirme que não desiste da linha de actuação anunciada, desde o começo. Ele não é omnipotente. Uma verdadeira reforma não se decreta nem se consegue apenas com a mudança de alguns nomes. Por vezes, quando se pensa que se conseguiu um bom colaborador encontrou-se um judas.

2. O desígnio pastoral de Bergoglio continua o de um verdadeiro pontífice: fazer pontes onde outros levantam muros, voltar os nossos olhos para a vergonha de um mundo sem os mínimos éticos e tornar a Igreja um exemplo de democracia participativa. Isto exige um clima eclesial onde a união se realize na diversidade criadora. Mas, para ser autenticamente pastoral, precisa de se deslocar para as periferias existenciais, o centro esquecido das comunidades cristãs.

Os obstáculos à sua lógica de reintegração revestem-se, muitas vezes, de razões pseudo dogmáticas e de doutrinas ditas irreformáveis, sobretudo no tocante aos ministérios ordenados, à moral sexual, à situação da Mulher na Igreja e às chamadas situações familiares irregulares.

O Papa abriu um debate que, por ele, teria sido muito mais fecundo se a consulta às dioceses tivesse sido mais ampla, mais aprofundada e com menos boicotes. Mesmo assim, não se deixou intimidar pelas manobras que ameaçavam rupturas irreparáveis. Pelo contrário, geriu, com muita firmeza, os conflitos, mantendo aberto o diálogo entre todas as tendências, para que todos pudessem aprender com todos. Fez do diálogo e da firmeza o seu comportamento.

3. As origens do cristianismo não foram um mar de rosas. Estão semeadas de conflitos e dois mil anos de história das igrejas também não são o deslisar de um rio pacífico, muito pelo contrário.

O livro admirável dos Actos dos Apóstolos – uma obra sem epílogo, abrindo apenas o futuro – oscila entre uma imagem idílica da comunidade cristã dos começos [4] e a do conflito entre hebreus e helenistas [5], apresentando, depois, uma suave abertura aos gentios [6], muito diferente da relatada por Paulo [7]. O seu projecto não esconde a lógica das tentativas de marginalização, mas a opção do seu projecto literário é marcar a vitória da lógica da integração, mostrando os resultados da boa gestão dos conflitos.

Hoje, celebra-se a festa da Ascensão do Senhor. S. Lucas já tinha, no primeiro volume da sua obra, tocado nesta metáfora de fim de carreira [8]. Agora, nos Actos dos Apóstolos, desenvolve o cenário com mais cuidado. Tem de resolver duas situações. A primeira é a da ânsia de poder que continua a dominar os discípulos de Jesus: o único poder que vos garanto é o do Espírito Santo que vos vai meter em trabalhos até aos confins da terra. A segunda é a do medo: preparai-vos para acolher essa divina energia e não fiqueis pasmados a olhar para o céu. Há muito que fazer [9].

Igrejas sem conflitos? Nem ontem nem hoje nem amanhã. A grande sabedoria consiste em não os negar nem os acirrar. As comunidades católicas não deveriam dispensar bons gestores de conflitos.

[1] Ap. 21,1-5

[2] Act, 15; ano 49 d. C.

[3] Act 4,17: A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma

[4] Act 4, 32

[5] Act 6

[6] Act 10 - 11

[7] Gal 2, 11-14. Cf. Senén Vidal, Hechos de los Apóstoles y orígenes cristianos, Sal Terrae, 2015.

[8] Lc 24, 50-53

[9] Act 1, 6-11



publicado por animo às 21:46
link do post | comentar | favorito

pesquisar
 
Março 2018
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
12
13
15
16
17

18
19
20
21
22
23
24

25
26
27
28
29
30
31


posts recentes

DA ARTE E DOS ESPAÇOS INE...

OBRIGADO, MANUEL

ANTONIO COLAÇO NO "VOCÊ N...

PE ANSELMO BORGES NOS ANI...

ANA SÁ LOPES NOS AAAANIMA...

ANA SÁ LOPES NOS ANIMADOS...

O OUTRO LADO DO AAANIMADO...

LISBOAS

CHEF PEDRO HONÓRIO OU AS ...

BALANÇO FINAL . JOAQUIM L...

REGRESSARAM OS AAANIMADOS...

IN MEMORIAM ANTÓNIO ALMEI...

PE ANSELMO BORGES NÃO TE...

MINISTRO CAPOULAS SANTOS ...

WEBANGELHO SEGUNDO ANSELM...

CARDIGOS, AS CEREJAS E O ...

trip - ir a mundos onde n...

´WEBANGELHO SEGUNDO ANSEL...

ANDRÉS QUEIRUGA EM PORTUG...

WEBANGELHO SEGUNDO ANSELM...

arquivos

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Outubro 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

tags

todas as tags

links









































































































































































































subscrever feeds